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The Middle Way

Blog humanitário e reivindicativo da liberdade e felicidade de todos, até do próprio planeta.

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06
Mar18

A viagem - uma história. O Fim

JR

Setembro de 2012

 

Desta vez, atravessei Portugal na horizontal. A estrada tornou-se mais acidentada, com curvas apertadas, serpenteando ao longo de montanhas. Deixo para trás o Parque Natural de Montesinho. Chego, sem grande dificuldade, a Chaves. Começo a não gostar de domingos. As cidades tornam-se melancólicas de tão vazias que estão. As ruas desertas de lojas fechadas. Passo por casais solitários e calados, de mãos dadas, que passeiam pela Rua Direita, por baixo de varandas de madeira. Sento-me a olhar o Tâmega que passeia calmo, também ele domingueiro. O tempo passou rápido: nove dias supersónicos num país que me enche a alma. Como uma sandes num café e vejo o telejornal. O povo português, pacífico por natureza, começa a exaltar-se. Os ânimos aquecem num descontentamento que é geral.

 

Atravesso o fabuloso Gerês. As montanhas são gigantescas, imponentes! A estrada ziguezagueia lá no alto, vertiginosamente, em vistas fenomenais. Deixo barragens para trás, vejo burros pelo caminho. Olho o mapa, já rasgado do uso, e seguro o volante. Sinto-me cada vez mais confortável a conduzir. Desenvencilho-me em Braga, depois de me ter perdido por breves instantes, e entro novamente na estrada nacional. 

Estou no Minho! Tudo à minha volta é verde! Vejo videiras de uvas escuras, maduras. Festas em várias vilas, honrando vários santos.

Entro em Ponte da Barca. A praça central tem um café com muita gente. Atravesso a praia fluvial e arrependo-me de não ter trazido o bikini vestido. Lá ao fundo, vejo a ponte em contraluz. Perco-me nas ruas e encontro um caminho de terra batida atrás da igreja e aproveito para petiscar umas amoras silvestres que pendem de muros velhos.

 

Em Ponte de Lima festejam-se as colheitas. A margem do rio está cheia de vendedores, de carrinhos de choque e de quiosques de farturas. Acendem-se as luzes. As pessoas estão felizes. Eu estou feliz.

Tenho, pela primeira vez, companhia no quarto da Pousada. Hoje, aqui, estou apenas eu e um grupo de franceses. Trocamos poucas palavras em inglês, língua comum, e sorrimos. Dentro de poucos dias regresso à companhia dos meus colegas, à agitação normal do dia-a-dia. Regresso a casa. 

E onde é casa?

 

***

 

Comprei o jornal em Valença. Conclusão? O mundo está um caos! Existe uma diferença abismal entre ler uma notícia solta, aqui e ali, e ler um jornal de fio a pavio. É a austeridade e a violência doméstica. É a violência na Síria, que se mantém sem previsões de fim para breve. É o Japão e a China que lutam pela posse de ilhas onde poderá haver petróleo. São manifestações contra o vídeo que ridicularizou Maomé, com ameaças de morte a americanos. 

Morte. Em segundos, mata-se uma pessoa. Em dias, milhares morrem. Não é a morte, em si, que me assusta. É o ódio e o medo no olhar. A desvalorização da vida. A intolerância. O poder. A patetice dos egos. Tudo isto me ultrapassa. As guerras continuam, a história repete-se. Não houve evolução de espírito, houve aumento de cobardia. E vivemos nós na modernidade...

Perdida na fortaleza antiga de Valença, a minha viagem foi interior. Para quê imaginar antigas batalhas, quando elas nos desfilam, diariamente, à frente dos olhos? Para onde caminhamos? Qual o nosso papel?

 

Em Vila Nova de Cerveira um rio separa-me de Espanha. Uma angústia mancha-me a alma. Imagino-me um pontinho minúsculo no mapa de Portugal (invisível no mapa do mundo!) e a percepção da minha pequenez esmaga-me. Na Pousada da Juventude cruzo-me com um casal jovem que está a fazer o check in. Nesta altura do ano, somos poucos em viagem por estas bandas. As aulas começaram, o dinheiro não chega. Estico as costas, já doridas da viagem, e espero que os minutos passem a seu ritmo. Não tenho pressa.

Ao final da tarde, decido sair. O centro da vila alcança-se num instante. A praça está, moderadamente, cheia. Pacatos senhores, sentados em frente à Igreja, trocam impressões. As ruas estão repletas de pequenos farrapos coloridos que anunciam que, também aqui, houve festa. Compro uns enlatados numa mercearia que levo para jantar. Já na pousada, o tal casal senta-se na sala de convívio e vemos juntos, sem ver, um programa qualquer na televisão.

 

Por muito que viajemos sozinhos, por muito isolados que estejamos, nunca estamos sós. Cada cidade pode ser nossa, cada pessoa pode ser família. Pela estrada fora, tenho encontrado um povo português abatido, mas sempre afável. Por mais pequeno que seja o nosso ponto no mapa, temos um mundo que nos rodeia e que merece o nosso esforço. Cada um de nós importa. A nossa mais pequena acção repercute-se na vida de alguém. As acções somam-se. Que venham todos os jornais! A informação é a arma de qualquer luta pacífica.

 

***

 

Estou no último dia da viagem e segui caminho até à maravilhosa Foz do Minho. Soube-me bem voltar a pisar areia da praia. Pela primeira vez, pisei águas fluviais e marítimas em simultâneo! Senti, de imediato, o cheiro a maresia. Inspirei fundo, abrir os braços e sorri para Espanha. As ondas aterram pacificamente na areia e, lá longe, ouve-se o rugido ininterrupto do oceano. Sinto-me, literalmente, entre a tempestade e a bonança, como se estivesse no limbo que separa o passado do futuro. Demorei-me longos minutos a saborear esta antítese de tempo e de estado de alma.

Mais tarde, acabei por parar na praia de Afife. Apesar do sol, sopra um vento gelado. Enchi-me de coragem, corri até à água e mergulhei.  Senti-me congelar de forma progressiva, cada osso do meu corpo a protestar. A praia estava deserta. Deitei-me ao sol frouxo, tentando secar o máximo possível e adormeci na imensidão das horas que ainda tinha até ao anoitecer.

 

A meio da tarde, estaciono em Viana do Castelo. Mais uma cidade feita de reboliço. Fiz o resto do caminho até Penafiel sem parar. Cheguei ao anoitecer. Jantei numa tasca com um amigo da faculdade e conversamos até tarde.

 

 

***

 

Chegar a Faro é aconchegante. Não consigo descrever a paz que sinto. É incrível como, em pouco tempo, moldamos uma cidade à nossa medida.

 

 

Lembro-me perfeitamente do primeiro momento que pisei Faro. Consigo, ainda, sentir a estranheza do local, a entrada fria pela zona industrial, o Fórum iluminado com as luzes do Natal, o cansaço da passagem de ano recente e a alegria, sim, a imensa alegria de estar ali, no abismo do desconhecido. Tinha uma cidade inteira por descobrir, um Algarve de costa longa e, principalmente, tempo nas minhas mãos para aproveitar cada passo. Faro, nos longos dias quentes de Verão, tornou-se o nosso recanto. Voltei a dar valor aos pequenos prazeres da vida: um livro numa esplanada com vista sobre o mar ou sobre a ria, gargalhadas fáceis numa mesa rodeada de amigos, derramando o olhar sobre o horizonte largo e longo.

 

Serviço após serviço, estágio após estágio, conheci gente diferente e aprendi com todos eles. Aprendi com os meus colegas, meros internos como eu, na base da cadeia alimentar hospitalar. Colegas que se tornaram amigos. Aprendemos como sobreviver à insegurança que a falta de experiência nos dá e a arranjar forma de ganhar essa experiência e de a partilharmos. Aprendi que, num simples balcão dos verdes, por vezes caótico, conseguimos organizar a nossa pequena equipa e conseguimos ser bons, verdadeiramente bons. Ficamos contentes com os pequenos grandes diagnósticos que fazemos, com o nosso raciocínio cada vez mais perspicaz. Aprendi, sobretudo, com os doentes.

 

***

 

A dona Miquelina, uma senhora de 89 anos,  deu entrada no nosso internamento, enviada do Serviço de Urgência. Era uma senhora pequena, magra, de cabelo curto acizentado, de conversa escassa e olhar triste. Vinha com queixas vagas de dor abdominal e um diagnóstico inicial de gastroenterite e desidratação. Trazia, contudo, uma TC abdominal onde se via um volumoso conglomerado adenopático junto à aorta. Ficou connosco para estudo de caso clínico.  Cabia-me, a mim, avaliar a sua evolução clínica todas as manhãs, pelo que acabamos por manter um contacto próximo. Alegrava-me nos dias em que não sentia dor, ou quando o seu apetite aumentava. Fez inúmeros exames. Melhorou e piorou, ciclicamente.

Tinha um linfoma. Pequenas outras adenopatias foram descobertas, mais tarde, à volta dos brônquios e da traqueia. Foi piorando, lentamente. Tinha muitas visitas de familiares, principalmente da sua neta, que lhe tinha uma dedicação enternecedora, já rara nos dias de hoje. A doença estava disseminada e tentavamos dar-lhe conforto, apesar das infecções respiratórias sucessivas que acabou por ir sofrendo.

 

Naquela manhã, durante a visita à enfermaria, percebi-lhe uma maior dificuldade respiratória que se agravou de forma galopante. Poucas palavras me conseguiu dirigir, mas hei-de sempre recordar o olhar assustado, dirigido ao tecto do quarto, como quem procura o céu. O vaivém da enfermeira, aumentando o oxigénio e a dose de morfina. O telefonema para a família, as lágrimas escondidas do chefe da equipa. Eu que lhe dava a mão e engolia as lágrimas que não queria soltar. O medo nos olhos e a respiração ofegante. A neta a chegar e o conforto do abraço, o aconchego de ter um pouco do lar num quarto impessoal do hospital. O medo que vai passando nesse abraço, cada vez mais apertado de despedida. As cortinas que fecham, as lágrimas que não contenho. O abraço que dou à neta. O óbito certificado. A mão que dou à dona Miquelina que encontrou o céu. A certeza que também somos impotentes e que a vida acaba. A família. Os médicos. Os doentes. A dona Miquelina que me ensinou a ser forte.

 

 

 

Larguei as malas no meu quarto fechado e escuro e deitei-me no sofá da sala. No meu sofá. Na minha sala.

Esta viagem acaba.

Outra começa.

 

 

FIM

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03
Fev18

A viagem - uma história #8

JR

Setembro de 2012

 

VIII

 

Desta vez, custou-me seguir em frente. Mas, Brangança esperava ansiosamente pela minha chegada. Antes de deixar o Côa e o Douro, com a nostalgia de uma despedida, fui comprar duas garrafas de vinho às caves de Pocinho e subi, sorvendo a paisagem, ao miradouro de Santa Bárbara, em Mós. O resto do caminho foi perdendo a beleza sem igual do Douro. A maior parte das estradas até Bragança parecem estar em obras intermináveis, sendo um aglomerado de betão, alcatrão e poeira castanha que me sujou o carro. A meio caminho, parei em Mirandela. Paragem estratégica para almoçar uma das suas famosas alheiras. O empregado de mesa, sempre brincalhão, lá me trouxe um fabuloso exemplar com todas as calorias a que tinha direito. Perguntei onde podia comprar aquelas mesmas alheiras, dirigi-me à loja indicada e lá vim eu, contente, com o meu petisco no porta-bagagens.

 

Chegar a Bragança foi um alívio! Tinha conseguido! Cheguei ao norte de Portugal! Quase a tocar Espanha! 

A pousada da juventude estava, pela primeira vez, repleta de gente, brasileiros em maioria. Jovens acabados de chegar para um ano de Erasmus. Trocámos umas palavras enquanto eles bebiam cerveja portuguesa, prontos a iniciar mais uma noitada de fim-de-semana. Lembrei-me, com nostalgia, dos meus primeiros tempos em Praga, naquele já longínquo ano de 2008.

Bragança é atravessada por um rio que parece estar a morrer, com pouca água estagnada. De qualquer maneira, tem um centro histórico acolhedor, que  me recebeu alegremente naquele fim de tarde. Acabei por me juntar à população numa das muitas manifestações contra a austeridade que decorreram por todo o país. Esta, muito mais modesta, mas com o mesmo empenho e indignação. Ouviram-se palavras de ordem, cartazes espalhados ao longo da praça, caras sérias e tristes. Numa das maiores manifestações que o país viu desde 1974, fiquei orgulhosa do povo português, da nossa perseverança e pacificidade, da nova geração que se levanta e luta por um futuro neste país que, apesar de pequeno, se eleva em beleza, história e determinação. O meu país que agora descubro.

 

Janto uns noodles rápidos e baratos, preparados na cozinha do alberguista, enquanto ouço as conversas animadas dos brasileiros, contando as suas peripécias. Parece que acabei de entrar numa das muitas telenovelas que passam, diariamente, nos canais portugueses.

 

 

Cheguei a Praga às seis da manhã. Lembro-me, perfeitamente, da primeira vez que a vi, naquela manhã fria e cinzenta, da janela do carro de Petr, o nosso buddy que, gentilmente, nos foi buscar ao aeroporto. Começava o meu ano de Erasmus, aquele que foi dos marcos mais importantes da minha vida, o grande ponto de partida para a minha independência. 

 

Hostivař é uma das zonas da periferia da cidade e é uma zona feia. Ficamos alojadas na residência universitária, um conglomerado de edifícios brancos e azuis, autênticos caixotes cheios de janelas. Mas, na verdade, aquele corredor do 6º piso foi o sítio mais acolhedor que podíamos ter encontrado. Rapidamente, formamos a nossa pequena família: portugueses, espanhóis, franceses e uma polaca. Tornámo-nos inseparáveis. Até hoje.

 

Praga é um conto de fadas. Relembro, inúmeras vezes, aquelas ruas pequenas de edifícios restaurados, coloridos, intricados. Acordávamos sempre de manhã cedo, ainda escuro, e fazíamos 40 minutos no tram 22 até o nosso hospital. Parece que ainda sinto o frio doloroso na cara, o reclamar dos ossos e o barulho dos pés ao pisar a neve fofa acabada de cair das nuvens. Tiritávamos de forma incontrolada, apesar do gorro enfiado até ao pescoço, do casaco apertado ao máximo e das luvas nas mãos. Mas Praga nevada, em plena época de Natal, com os seus Christmas´markets ficará, para sempre, na minha memória. O cheiro do trdlo acabado de fazer, o fumegar do hot wine nas nossas mãos e um grupo animado de Erasmus a cantar múscias de Natal por baixo de um pinheiro iluminado gigante.

Fiz, em plena Europa central, dos melhores amigos que levo comigo para a vida. Foi lá que cresci, que conheci mundo! Tudo nos era possível, tínhamos a liberdade nas mãos e vontade de a experimentar ao máximo. Em poucas horas eram decididas e planeadas viagens e, dias depois, lá estávamos nós a entrar para um autocarro, de mochila às costas e aventura como destino. Outras vezes, já fartos do frio da neve, ficávamos sentados, pela noite dentro, na carpete suja do corredor, a provar as deliciosas iguarias de vários países, acompanhadas pelo habitual meio litro de Kozel ou Pilsner fresquinhas. Viajávamos, apenas, nas nossas conversas, no partilhar de histórias e de diferentes culturas. Estar em Erasmus é estar no mundo inteiro ao mesmo tempo.

 

É difícil resumir um ano como aquele, em que tanto aconteceu e em que tudo mudou. Eu mudei. Fui para lá sem conhecer ninguém. Ia habituada à rotina de Coimbra, ao vaivém das festas académicas, dos encontros na Praça da República, da família perto. E, de repente, aterrei naquela cidade estranha, rodeada por milhares de jovens estrangeiros, cada um com o seu inglês de sotaque engraçado. Saí de lá com a certeza de que sou capaz de sobreviver, que me consigo adaptar às circunstâncias. Praga abriu-me as portas do mundo e despertou-me a curiosidade e a vontade de fazer mais, conhecer mais, saber mais. Ser mais.

 

***

 

Senti uma felicidade incontrolável quando te vi chegar naquele avião. O abraço apertado que me deste, que me elevou do chão por segundos, trouxe-me o Portugal que tinha deixado para trás. Queria mostrar-te tudo, partilhar aquele meu novo país contigo, mostrar-te o meu corredor, a neve nos telhados, as casas, as caras. Tinha saudades tuas. Tive sempre saudades tuas, apesar de adormecer, todas as noites, com a tua fotografia colada na parede ao lado da cama, perto da almofada.

 

E, portanto, lá estavas tu no meio da neve, com o gorro branco que te tinha dado enfiado na cabeça e o teu casacão de quadrados. Gostava de te ver lá, com o teu sorriso familiar de dentes que não se tocam, sentado no banco da frente do tram. Fazia todo o sentido estarmos juntos e, naqueles primeiros dias, Praga foi perfeita contigo. Tinham-se passado 6 meses desde a nossa despedida. Naqueles dias, enquanto olhava para ti, tive a certeza de que nunca nos iríamos separar. Não consigo explicar como, mas essa certeza cresceu em mim, minuto após minuto, na felicidade estonteante de te ter lá e de te querer lá. Foi uma certeza que se insuflou, cresceu, ganhou altura...

 

...e depois se estatelou no chão. É engraçado como as coisas mudam em instantes. Lembro-me tão bem desse momento em que deixei pousar, descontraidamente, os meus olhos na tua conversa virtual. O coração assustou-se e o corpo gelou. Não estava a compreender. Não queria compreender.Não era possível. Não. Não podia ser. Olha para mim, não vês? Sou eu. Eu. Era suposto ficarmos juntos, não sentes? Sentes. Dás-me as mãos. Abraças-me. Explicas. Desculpa as lágrimas, mas não as consigo controlar. Tremo. Lembras-te de como fomos felizes antes? Não me perdoas nunca e eu diminuo-me no teu abraço. Culpas-me. Culpo-te. Culpo-me. Vê como Praga se tornou feia. Vê como chove e eu não me importo. Tudo é cinzento do alto de Petřin e as ruas passam rápido pela janela do tram e não as vejo. Não consigo ver nada. Sinto apenas o nó na garganta e o erro em que tornámos o futuro.

Não vás ainda, dá-me a tua mão. O futuro vem depois e estás aqui. Ainda somos os mesmos hoje. Amanhã começamos a andar em sentidos opostos. Vamos fingir que tudo está bem. Lembras-te de como ríamos juntos? A tua face esquerda, a minha preferida. O alto na tua sobrancelha por causa do piercing. Os teus ossos salientes. O tempo passou. Voltamos atrás?

 

Se não fosse Praga, talvez ainda estivéssemos juntos. Aquele ano separou-nos definitivamente. Ganhei Praga e perdi-te. Naquela manhã, acordamos e levei-te ao aeroporto. Lembro-me que fizemos aquele caminho em silêncio, olhos nos olhos, de mãos dadas nos solavancos do autocarro, com a tua mala aos nossos pés. Conhecia-te tão bem...! Os teus olhos, o teu modo de olhar, o lábio inferior mais saliente. Deste-me o último beijo antes de embarcares. O último beijo da nossa história. Não houve mais carinho entre nós. Aquele avião levou-te.

 

 

To be continued...

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15
Jan18

A viagem - uma história #5

JR

Setembro de 2012

 

V

 

É noite e está uma ventania em Idanha-a-Nova. A zona antiga da cidade, onde fica a minha pousada, está completamente vazia. Cá fora,  de pêlo esvoaçante, está um gato preto a comer um bocado de fiambre que o senhor da recepção lhe deu. O vento quente uiva, abana os ramos das árvores. Diria que podia começar a chover a qualquer momento, desabando sobre nós um temporal medonho.

 

Conheci Castelo de Vide pela manhã. É uma vila muito engraçada, com ruas que sobem e descem, íngremes, levando-nos até ao castelo e ao forte de São Roque. Por volta do meio dia, já rolava os pneus pela estrada fora. Estamos, definitivamente, numa paisagem completamente diferente das anteriores! A serra envolve-nos, as árvores crescem nos céus, criando sombras agradáveis na estrada. De sul para norte, os animais que vamos vendo pelos caminhos vão, também, mudando. Primeiro, pastam vacas e touros nos longos prados do baixo alentejo. Mais a norte, começamos a ver cavalos imponentes. Subindo mais ainda, deparamo-nos com ovelhas preguiçosas.

Entretanto, Tejo à vista! Estava um calor insuportável! Cheguei a Castelo Branco já cansada, a precisar urgentemente de um café e, talvez, de uma sesta. Mas, lá me contive e, debaixo daqueles raios de sol em brasa, andei pela cidade. Já não estava habituada a tanta confusão! Todos os caminhos que fui fazendo, até agora, levaram-me a cidades calmas, terriolas e vilas praticamente desabitadas, mantendo-se firme a população idosa, com senhores dormitando nos bancos de jardim. Castelo Branco tem vida! Tem cafés apinhados de gente! Talvez, por isso mesmo, decidi continuar viagem. Procuro recato e paz.

Depois de uma rápida incursão a uma barragem perdida no meio do caminho, uma tal barragem Marechal Carmona, e um passeio por Idanha-a-Velha, achei que o melhor plano para hoje era jantar umas pêras que tinha na mala do carro e acabar o dia, na pousada escolhida em Idanha-a-Nova, a ver um filme. E foi assim que, pela primeira vez, senti saudades do hospital. O filme, Lourenzo´s oil, foi-me recomendado pelo meu pai. Trata de uma história verídica, de um menino com Adrenoleucodistrofia. Vi o filme todo, concentrada nos pequenos progressos da medicina. E foi, no final do filme, que vim para a rua e me apercebi do vento furioso. Sentei-me a pensar, finalmente, naquilo que quero fazer da minha vida. Os meses vão passando e ainda tenho uma escolha importante por fazer. Deixo-me embalar pelo vento. E penso.

 

 

Ser médica, pela primeira vez, não é fácil. Entramos no hospital de cabeça erguida e de canudo na mão. Há, primeiro, que nos habituarmos ao espaço, às rotinas dos serviços, aos nossos chefes. Trazemos na memória algumas das milhares de páginas que lemos ao longo dos seis anos de curso. Seis anos conglomerados, por fim, nos cinco intermináveis capítulos que nos são depositados, pesadamente, nos braços. Seis anos resumidos num, que determina o nosso futuro. Olhando para trás, parece impossível termos aguentado aqueles dias sem fim, naquela rotina rígida de bibliotecas e de café atrás de café, de sestas rápidas em cima dos livros, de almoços cronometrados ao segundo. Dias em que os nossos pequenos prazeres se resumiam a conversas ocasionais e às horas de sono que nos permitíamos por noite. Aquele ano pareceu-me um dia gigante. Tudo para um exame que acaba num piscar de olhos.

 

E, então, sou médica. E, de doente à frente, a sensação que tenho é que preciso tirar um outro curso de Medicina. Olho para o doente e recordo a sequência de passos da história clínica. Faço as perguntas, anoto tudo. "Lembra-te do que é importante!", "E agora? Qual o próximo passo? Claro, o exame físico! O precioso exame físico!". Procuramos e remexemos na memória à procura de todos os diagnósticos diferenciais. "Não te esqueças de nada...tens tudo na cabeça. O que não tiveres podes sempre procurar nos livros...". Mas é uma sensação gratificante, ganhar prática a cada dia que passa. Aprendermos, agora sim, realmente aprendermos, o que é ser médico, o que é ser doente. Não é o curso que nos faz médicos. Só somos médicos ao sê-lo. Vamos sendo, aos poucos. 

 

Milhares de pessoas passam por nós nas urgências, mas há sempre algumas que nos marcam. Lembro-me de uma senhora espanhola, com cerca de 60 anos de idade, pacificamente deitada na maca, na sala da pequena cirurgia, com um golpe fundo na testa que vertia sangue. Tinha acabado de entrar, depois de várias horas à espera. Cá fora, ouviam-se choros e queixas de doentes que esperavam. Maridos batiam à porta, furiosos, a perguntar pelas suas esposas, reivindicando braços inexistentes e trabalho redobrado. "Peço desculpa, tem de ter paciência, há muita gente e temos de ver primeiro quem está pior" - explico, sem saber para onde me virar, enquanto outro senhor me agarra no braço - "menina doutora, isto é inadmissível!". Fecho a porta e respiro fundo. Resgato, mais uma vez, da memória todos os passos da história clínica, enquanto me aproximo da senhora espanhola. Tinha caído de uma escada, nunca tal lhe tinha acontecido antes. Deve ter escorregado. Sorri para mim enquanto a suturo, sem nunca se queixar. Diz-me que é espanhola, mas que já vive em Portugal há muitos anos, depois de se ter casado com um português. "E gosto de cá estar". Continuamos a conversar, limpo a sutura, arrumo o campo de trabalho e faço todas as recomendações devidas. Suspiro e preparo-me para voltar ao corredor atulhado de gente quando a senhora me chama - "Obrigada, doutora" - Fiquei parada uns segundos. É tão raro ouvirmos tais palavras! - "Ora essa, que ideia! Não fiz mais que o meu trabalho..." - digo, ainda atrapalhada. "Não, doutora. Aqui, toda a gente se queixa, toda a gente tem dores. São poucos os que reconhecem o vosso trabalho quando, todos os dias, lidam com a miséria humana. E a menina é jovem, tem de ser forte". Sorrio, aperto-lhe a mão. "Obrigada." - digo eu, desta vez. Continuo o meu turno, motivada. São estas as nossas baterias. Meras palavras.

 

 

To be continued...

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19
Dez17

A viagem - uma história #3

JR

Setembro de 2012

 

III

 

Acordei para uma manhã solarenga. Abri as cortinas para deixar entrar a pálida luz e deixei-me dormitar um pouco mais. O hotel pareceu-me estranhamente vazio, com poucos carros no parque de estacionamento. Demorei até encontrar a sala do pequeno-almoço. Depois de uma sandes de queijo e de um café revigorante, lá arranquei rumo ao Alto Alentejo. Ao longo destes três dias, tenho-me apercebido de que uma boa banda sonora no carro influencia bastante o nosso estado de espírito. Com isso em mente e com uma boa dose de energia, deixei tocar bem alto os hits da minha adolescência, na voz de Fred Durst - e na minha. E assim, gritando raivas acumuladas pela janela do carro, cheguei a Vila Viçosa.

 

Por sorte, estamos no último dia das festas dos Capuchos. A praça principal da terra estava cheia de pessoas andando, de um lado para o outro, de cerveja na mão. Outras encostavam-se a um estrado de madeira que delimitava uma espécie de recinto que tinha, como ponto central, uma fonte de pedra. Foi então que ouvi um estrondo! Com curiosidade, furei a multidão e, também eu, espreitei através das grades. Dei de caras com um touro grande, preto e pachorrento. Aparentemente, era o touro 36, segundo a inscrição que trazia no dorso. "Ah! Este mexe-se mais que o de ontem! Pelo menos, já corre pelo recinto todo. O de ontem ficou-se ali por cima" - disse-me, apontando, uma senhora de chapéu na cabeça que se aproximou de mim. "Lançam um touro por dia?" - perguntei. "Não, não! São três. Hoje ainda tem mais dois para ver". 

Olhei para o touro e achei-o tudo menos energético. Olhava confuso para todas as pessoas que o incitavam e, de vez em quando, lá investia. Os corajosos forcados amadores, nas suas camisas brancas e óculos Ray Ban, corriam desalmadamente para o ponto elevado mais próximo. Decidi deixar a multidão animada a cansar o pobre bicho e fui ver o castelo.

Como calculei, estava vazio. Entrei na igreja, sentei-me um pouco ao fresco, voltei a sair e decidi entrar no cemitério. Logo à entrada, a campa de Florbela Espanca! Ah! Como eu devorava os poemas dela! Li-os muitas vezes, nas alturas tristes, partilhando a mágoa e solidão que ela tanto descrevia.

Regressei, depois de um passeio rápido pela vila, para a zona animada da festa dos Capuchos. O mesmo touro, o tal 36, lá andava de um lado para o outro, babando-se de cansaço. Olhos desnorteados, narinas abertas da respiração ofegante, tentando decidir qual dos corajosos merecia mais um pouco do seu esforço. Com tamanha indecisão, achei que era altura de ir almoçar uns pézinhos de coentrada, antes de rumar a Borba.

 

O caminho entre Vila Viçosa e Borba está cheio de pedreiras de mármore. Pedras brancas gigantes, amontoadas, como se tivesse havido, na noite anterior, uma chuvada de pedras. Lá mais para a frente, como estava à espera, as vinhas. Estas mantêm-se durante o resto do caminho e multiplicam-se até Elvas.

O centro histórico de Elvas está dentro de grandes muralhas protegidas, ainda, por um fosso fundo. À volta da cidade, existem mais dois fortes, o forte da Graça e o de Santa Luzia, que nos propiciam uma vista magnífica do alto do Castelo. Pela primeira vez, fiquei a dormir em casa de amigos. Lá consegui exercitar a minha voz. As conversas desenrolaram-se, cada vez mais fluidas, durante um óptimo jantar alentejano de migas de espargos e hortelã, regado com um bom vinho regional alentejano recomendado pelo empregado de mesa, que era brasileiro. Encontrava-me entre um engenheiro e uma médica. 

O dia acabou com uma volta nocturna pela cidade velha. Assim, à noite, a cidade ganhou um encanto especial. E foi aqui, em Elvas, que pela primeira vez senti falta de ter alguém comigo, ao meu lado, nesta viagem. As muralhas iluminadas, no meio da ventania forte que se fazia sentir naquela noite estrelada, merecia um abraço, com Badajoz no horizonte.

 

 

Fechei a porta atrás de ti.

 

Quando entraste, naquela noite, sabia que tudo tinha um jeito de despedida. Trouxeste tu a garrafa de vinho e eu não fiz jantar. Sentia um nervosismo resignado, bem diferente do nervosismo expectante das outras vezes. Sempre me deixaste nervosa, como quem não sabe onde pôr a mão, como colocar a voz, qual a palavra certa.

Conhecia-te de histórias, de longas e míticas histórias dos teus tempos de rebeldia e, a princípio, foi difícil associar-te, a ti fisicamente, à personagem que tinha criado no meu imaginário. Mas, foste marcando presença no meu dia-a-dia e eu deixei. Falar contigo começou a ser fácil. Sempre fui uma pessoa mais de palavras escritas do que faladas, mas tu fazias questão de me ouvir e de te fazeres ouvir. E eu ouvi, ouvi sempre. Já não tinha como fugir, como estar longe de ti. Foi tudo tão rápido, parecia tudo tão magnificamente irreal, mas forte e intenso e perigoso. 

Foi assim que eu vivi a nossa história.

 

***

 

Portanto, fechei a porta atrás de ti, depois do beijo e do abraço, e chorei. Fiquei encostada à porta a tentar ganhar coragem para chamar por ti pela janela, ou à espera que tu fizesses o mesmo. Mas deixei passar os minutos e secar as lágrimas. Foste-te embora e eu fiquei, irremediavelmente, à tua espera.

 

Durante a tua ausência, revivi os momentos que tínhamos passado juntos, as conversas, as tuas expressões por detrás das palavras. A cidade rendeu-se ao frio de Dezembro e eu coloquei a minha pequena árvore de Natal ao pé da janela. Luzes coloridas na escuridão propositada da casa. Nessa escuridão, enchia o copo de vidro vermelho com vinho e olhava, sem ver, a rua de calçada portuguesa através da janela. Pensei em ti, desmedidamente. Via-nos, ainda, no sofá desconfortável da sala, nas longas noites de conversa que partilhávamos. Quando agora penso em ti, lembro-me do frio das ruas, do aconchego de estar em casa, dos pés molhados da chuva. Lembro-me dos telhados das casas e do rio ao fundo, do céu estrelado do Alentejo. Lembro-me do pulso acelerado, dos papéis escritos, das memórias que guardei para depois partilhar contigo. Lembro-me do tempo que nunca mais passava, principalmente, desse tempo que nunca mais passava.

Foste o meu Verão e o meu Inverno.

 

***

 

Acho que nunca te apercebeste do quanto de mim levaste contigo na viagem. Voltaste incompleto e não te voltei a abrir a porta. Quando dei por mim, estava sozinha com as mãos cheias de um amor que guardei, inútil e estúpido. A porta fechada. A árvore de Natal guardada na caixa, o início da Primavera lá fora. O tempo que tinha, afinal, passado e o sofá vazio. O Alentejo lá longe.

 

 

 

...to be continued.

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06
Dez17

A viagem - uma história #2

JR

Setembro de 2012

 

II

 

O dia começou enevoado pela manhã cedo. Por momentos, pensei que fosse chover. Mas, acho que foi essa cor cinzenta e lânguida que acabou por dar mais encanto à pacata metrópole alentejana de Beja. A cidade calcorreia-se rápido. Tem um pequeno centro histórico, com ruelas e casas coloridas, como bom lugarejo alentejano.

Os meus passos foram, entretanto, interrompidos por vozes exaltadas e frias vindas de uma janela azul de um palácio antigo. Ouvi-as, primeiro sem atenção. "Esteja calado!" - seguiu-se a voz rouca e pouco firme de um senhor de idade - "Seu chato!" - novamente o senhor, tentando impôr o seu ponto de vista - "Olhe que há gente que não tem quem cuide deles!" - som de pratos e talheres. Uma senhora a chorar ao longe. Parei. Foi aí que passei os meus olhos pelo edifício. Poderia aquilo ser um lar de idosos? Acelerei o meu passo, outrora lento de passeio, voltei atrás e fui procurar a porta principal: Centro de Apoio à Terceira Idade.

Apoio? Apoio de palavras? De carinho?

 

Decidi fazer-me, novamente, à estrada, no preciso momento que o sol voltou a vislumbrar-se por entre as nuvens. É engraçado como, realmente, a paisagem vai mudando ao longo do caminho. A cor avermelhada foi sendo substituída por um amarelo claro, largo no espaço, em longos campos de trigo, aqui e ali, manchados pelo castanho de girassóis secos e vergados. Tristes.

Cuba é capaz de ser dos sítios mais sós do Alentejo. Poucas foram as pessoas que se cruzaram comigo na rua. O senhor de boina e bengala a quem pedi indicações sobre um bom restaurante fez-me ver, na pacatez do seu discurso, que hoje era domingo. Agradeci, saudei Cristóvão Colombo no seu pedestal no centro da praça e perdi-me nas ruelas. Contentei-me com um belo hot dog, pouco típico da região.

 

Cheguei à barragem do Alqueva ainda com o sabor a ketchup americano. A paisagem é indescritível! Torna-se mais acidentada, com montes que se elevam, mais pontilhados de verde. O azul forte e brilhante da água é interrompido, ocasionalmente, por pequenos ilhéus. Teria ficado horas, alegremente, sentada no topo daquele miradouro. Lembrei-me do livro dentro da mochila, na mala do carro, lá em baixo, e arrependi-me de não o ter posto na carteira que levava ao ombro. Este sim, o "admirável mundo novo!" que vim descobrir. 

A barragem do Alqueva tem uma extensão enorme vista da aldeia histórica de Monsaraz. Do topo do seu castelo, temos uma vista panorâmica privilegiada da região. Monsaraz estava apinhado de gente! Logo à entrada, um trânsito a que já não estava habituada, com autocarros e turistas de bonés enfiados na cabeça. O omnipresente casal japonês, turistas obrigatórios em qualquer parte do mundo, de máquina fotográfica ao pescoço e sorriso aberto para o universo. Desta vez, o pôr-do-sol começou em frente à Rocha dos Namorados, que encontrei no caminho de regresso. Segui as indicações do cartaz informativo colocado lá perto: "...ainda hoje, as mulheres solteiras atiram uma pedra com a mão esquerda, de costas para a rocha, tentando colocá-la no seu topo. O número de tentativas falhadas corresponderá ao número de anos que faltam até se casarem." Uma, duas...três! Terceira pedra no cimo da rocha! Dois anos e estou casada! Ri-me com a improbabilidade de tal acontecer.

 

A entrada de Reguengos de Monsaraz cheira a vinho. Tal já se podia adivinhar, ao longo do caminho, pela quantidade de vinhas que ladeiam a estrada. Uns poucos dias mais e começam as vindimas. Arrepiei-me com a percepção inesperada do passar do tempo. 

E foi com o sabor quente do bom vinho tinto de Monsaraz que acabei o dia. Dentro deste quarto, ouvem-se os grilos lá fora. Da varanda, se fechasse os olhos, sentia-me em casa.

 

 

Era bem pequena quando fui para terras orientais. Na altura, ainda sob governação portuguesa, Macau podia ter sido considerada mais uma viagem na minha terra. As minhas memórias remotas, dos primeiros meses em Macau, são escassas. Lembro-me de todas aquelas coisas que marcam as crianças: os passeios em família, a estranheza da comida, os brinquedos que os meus pais foram comprando para alegrar o quarto de hotel, que foi a nossa primeira casa. Recordo as saudades, saudades da família e do meu amigo Álvaro, senhor bem parecido, de cabelos brancos raros espalhados na sua careca. O Álvaro foi o meu primeiro e melhor amigo de infância. Andava comigo para todo o lado, nos seus ombros ou atrás da sua bicicleta. Muitos dos meus dias eram passados na casa dele e da Maria ora vendo televisão, ora jogando Lotto. Aquela casa e aquele abraço eram o meu ponto de refúgio onde estava sempre, indiscutivelmente, protegida.

A Maria tratava da logística toda, rápida e desenvolta, dando-me óptimas sandes de chouriço. Adorava chouriço e ela fazia questão de ter sempre essa iguaria à minha espera. O Álvaro estragava-me com mimos. Lembro-me, perfeitamente, do pequeno copinho de vidro em forma de bota, onde ele me dava a provar umas gotinhas de café. A Maria bem reclamava - "não dês café à menina!...". Mas eu gostava e ele fazia-me, sempre, a vontade. Talvez o meu desmedido gosto por café, principalmente pelo seu aroma logo pela manhã, venha desses tempos passados.

Portanto, quando fui para Macau, o Álvaro ficou a chorar. Nunca me esqueci disso e, até me adaptar áquela terra estranha, andei triste também. Por ele.

 

Mas Macau ficou. As ruas começaram a fazer parte do meu dia-a-dia, os cheiros entranharam-se em mim, os sabores de todas as iguarias que comprava, sem medo, aos vendedores de rua tornaram-se vício. Todo aquele reboliço das ruas sujas, fervilhando de gente, de carros, de riquexós, de néons iluminados...tornou-se casa. Cresci numa mistura de línguas. O português, o inglês e o cantonense. Tornei-me, eu mesma, um pouco chinesa também.

Viajar de avião era já habitual. As longas horas no ar, bem lá no alto, não me incomodavam. Tinha sempre espaço no chão, entre as fileiras de cadeiras, onde cabia na perfeição. Lembro-me de adormecer, feliz, ao som ruidoso dos motores a trabalhar. Acordava ansiosa por saber que iguaria ia ser servida ao almoço e ao jantar. Toda a agitação prévia à viagem, fazer as malas, me deixava encantada na antecipação do ir.

 

Ainda hoje consigo traçar, mentalmente, grande parte dos percursos que fazia. Estranhamente, dou por mim a desejar sentir aquele ar pesado de humidade, quase irrespirável! Imagino-me sentada nos areais da praia de Hác-sá, com os pés enterrados e sujos de areia preta. Retorno, vezes sem conta, a esta infância longínqua.

 

A nossa casa está onde nos sentimos felizes.

 

 

 

...to be continued.

 

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