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The Middle Way

Blog humanitário e reivindicativo da liberdade e felicidade de todos, até do próprio planeta.

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22
Jan18

A viagem - uma história #6 e #7

JR

Setembro de 2012

 

 

VI

 

Quero uma casa em Monsanto. Pequena, com poucas divisões, de varanda virada para o pôr-do-sol e tendo, como parede, um pedregulho.

 

É um sítio que transborda paz, em todos os cantos da vila, com pedras enormes, lá no alto, quase a tocarem o céu. E o chilrear dos pássaros, à tardinha, preenche o silêncio. Chegar ao castelo é cansativo, mas totalmente compensador. Quem me deu as indicações precisas do caminho a seguir foi um senhor americano, de cabelo comprido, loiro, e longo bigode farfalhudo: "You just go straight up from here. Follow this road and you´ll find some beautiful, beautiful things". Pelo caminho, encontrei galinhas e um porco numa pocilga, revestida a pedra antiga e atapetada de maçãs podres que ele comia com vontade. Lá no alto, no ponto mais alto, sentimo-nos donos do mundo, como se mais nada estivesse acima de nós. A vista devolve-nos anos de vida, coragem, força, determinação. Por isso mesmo, sublinho, quero uma casa em Monsanto.

Deixei-me ficar no castelo durante um bom bocado. Queria gravar, de qualquer forma, aquela imagem na memória, para poder voltar a ela sempre que quisesse. Agora, apenas à distância de um dia, queria ser capaz de descrever todas as tonalidades que vi, mas já não consigo. No caminho de regresso, encontro uma senhora, vestida de preto e de cabelos brancos, a dormir sentada,  cabeça pendente, num banco de pedra. Silenciosamente, tirei uma fotografia. Voltei-me para seguir caminho, quando ela me chama - "Ah, veja lá! Estou com uma soneira! Venha aqui ver as marafonas, para ver se acordo". "Pois, deixe lá...depois de almoço é mesmo hora para ter sono" - brinquei enquanto avançava para o cestinho cheio de bonecas. "São todas ao mesmo preço. Aquelas pequenas têm um íman para pôr no frigorífico." - explicou - "é a minha filha que as faz". Eram, realmente, engraçadas. Fiquei a saber que as marafonas, estas bonecas de vestidos coloridos e cabeça branca, eram usadas em rituais de fertilidade. "Até já estive no Porto, naquele programa da Praça da Alegria" - gabou-se. Sorri, pedi desculpa por não comprar nenhuma, mas estava sem dinheiro e o multibanco ficava a uns quilómetros de distância.

 

Estou, portanto, nas Beiras. Tudo à minha volta me parece familiar, desde a paisagem rochosa, granítica, ao cheiro dos pinheiros. Aproximo-me da Guarda, o meu próximo repouso. Chego ao fim do dia, faço o check in no Hotel e deito-me a dormitar uma hora antes de sair.

A zona central da Guarda é acolhedora. À volta da Sé espreguiçam-se ruas estreitas pitorescas com cafés e esplanadas. Sento-me numa delas e escrevo um postal de cortiça, que comprei a um senhor, enquanto me refresco com uma cerveja fresquinha. Decido jantar no quarto do hotel, para poupar algum dinheiro. Faço uma salada rápida. Viajar assim, por Portugal, não fica barato e estamos em crise. Aproveito a boleia e encosto-me na cama a ouvir o discurso do nosso Primeiro Ministro, senhor ilustre, que nos diz, calmamente, que estamos todos lixados.

 

 

VII

 

Rectifico. Quero uma casa algures no Vale do Côa. Não apenas uma casa, quero uma quinta com videiras, oliveiras e amendoeiras em flor. Quero produzir vinho, azeite e acordar para a vastidão de flores brancas! 

 

A manhã, na Guarda, começou como todos os outros dias, com o pequeno-almoço  a que já estou habituada. Assim que peguei no carro, apesar de me sentir confiante ao volante, acabei por me enganar e apanhar uma auto-estrada. Mais um desperdício de dinheiro! Assim, quase sem querer, cheguei a Almeida por Trancoso. Almeida, a cidade muralhada mais impressionante de Portugal, com as suas fortificações em forma de Estrela. Contudo, depois de tanto ter calcorreado Portugal, e de ter encontrado recantos tão bonitos, Almeida não me impressionou. Dei a volta à muralha, sentei-me a comer uma pêra e segui caminho.

 

Decidi parar em Castelo Rodrigo. Segundo o mapa, era a paragem seguinte mais lógica. Ao chegar à rotunda que me levaria ao castelo, lá no alto, reparo numa placa que indicava o caminho para um miradouro na Serra da Marofa. Nem mais! "Vamos lá inovar!" - pensei eu. Subi, subi muito, numa estrada ora ladeada por pinheiros, ora por um precipício à direita. Tentei concentrar-me na estrada à minha frente, resistindo à paisagem absolutamente deslumbrante, que adivinhava pelo canto do olho. Ao longo da subida, vão aparecendo pequanas casinhas de pedra que, no seu interior, albergam pinturas cristãs. Chegar ao cume, foi das melhores surpresas desta viagem! Lá no topo, uma estátua de Cristo recebe-nos de braços abertos. Uma espécie de Cristo-Rei em ponto pequeno. Mas ele lá está, abrindo os braços sobre  Castelo Rodrigo, como quem a protege e abençoa.

 

O resto do caminho levou-me, por fim, ao vale do Côa e ao Douro vinhateiro, onde hei-de regressar vezes sem conta. Tinha ideia de chegar a Foz Côa e tentar, a todo o custo, conseguir uma visita guiada às pinturas rupestres. Mas, assim que pus os olhos naquelas montanhas de um verde intenso, ordenado em fileiras de videiras e oliveiras, numa disposição quase milimetricamente pensada, criando padrões de verde no horizonte, não resisti a deambular por ali. 

A pousada da juventude fica mesmo à saíde de Vila Nova de Foz Côa e as suas traseiras dão para os montes. Perguntei, na recepção, pela praia fluvial mais próxima. Queria mergulhar no Douro. Vesti o bikini o mais rápido que consegui e saltei, sorridente, para o carro em direcção a Pocinho. Admito que a praia fluvial não era tão agradável quanto estava à espera, mas o calor das quatro da tarde e o verde azulado da água convenceram-me a dar um mergulho, apesar do musgo que flutuava à superfície. Um pouco mais à minha esquerda, dois amigos estavam sentados a pescar. Pelo que me fui apercebendo, através das palavras pouco animadas que iam trocando,  a pescaria não estava a correr muito bem. A verdade é que, enquanto estive por ali deitada ao sol, para além do zumbido persistente das moscas moles que voavam à minha volta, ouvi várias vezes peixes a mergulhar nas águas.

 

 

To be continued...

 

Acabei o dia em conversas, um tanto ou quanto filosóficas,  com um amigo, ao jeito de antigas conversas cibernáuticas do passado. Adormeci pensando, seriamente, no conceito de felicidade, de paixão, de ponto fraco e defeito. Sonhei com o Douro.

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05
Jan18

A viagem - uma história #4

JR

Setembro de 2012

 

IV

 

Elvas ficou para trás. Sigo em direcção a Portalegre e à Serra de São Mamede por estradas nacionais. Temos de admitir, a grande maioria das estradas do nosso país estão em bom estado, permitindo que o carro deslize sem grandes solavancos. Decidi cortar à direita quando vi uma placa que dizia: Cidade romana de Ammaia. Esta é uma das principais vantagens de fazer uma viagem sozinha: a imprevisibilidade do impulso, a satisfação completa de apetites. 

Para visitar Ammaia, temos de pagar a modesta quantida de dois euros. Temos acesso a um museu e às escavações, que ainda estão em curso. De um modo geral, não sou uma pessoa de museus. Para visitar um museu, e para o aproveitar realmente, é preciso tempo. A mim, custa-me perder tempo dentro de quatro paredes. Mas hoje, lá fui eu. E foi uma agradável surpresa! O museu em si é pequeno e sucinto. O resto é ao ar livre, onde podemos pisar terra seca e ver gafanhotos saltar à nossa frente, a cada passo que damos. Dei por mim a imaginar a cidade na sua versão original,  com gigantescas colunas erguidas em amplas praças. Como é que se perdeu a beleza das antigas cidades romanas ao longo dos séculos? Como deixamos tal acontecer?

 

Marvão olha-nos lá do topo. É um lugar extremamente bonito, com vistas panorâmicas sobre a serra, simplesmente, deslumbrantes. Hoje, felizmente, estava praticamente vazia, com poucos turistas. Sentei-me numa esplanada e pedi a sopa do dia. A verdade é que me tenho tratado bem durante esta viagem. Mas, olhando para o menu, e fazendo contas ao dinheiro e à fome, achei que não era altura para experimentar mais um prato típico alentejano. Estamos em crise e a gasolina está cara. Para além disso, o meu organismo já se tem vindo a queixar da quantidade de calorias que tenho ingerido. Sim, a sopa era a escolha mais acertada.

 

E assim desci, curva apertada após curva apertada, até Castelo de Vide. Cheguei cedo, por volta das três da tarde. Carreguei a grande mochila, companheira de viagens, pelas escadas e cheguei ao meu modesto quarto no primeiro andar. O plano inicial era o de tomar um banho e aproveitar ainda o resto da tarde para dar uma volta e, talvez, jantar fora. Mas hoje, queria tudo menos seguir planos. Mergulhei na piscina fresca e dormitei ao sol, que nem lagarto. Sentei-me, pouco depois, na varanda e acabei o meu livro pousando-o, ocasionalmente, para ouvir o chilrear imenso dos pássaros no final da tarde. Senti uma paz imensa. E uma solidão vincada. Com o passar do tempo, a solidão a que me obriguei faz-se notar, cada vez mais nítida. Não me cruzei com mais nenhum viajante solitário. Nos hotéis, olham para mim com alguma estranheza e curiosidade, que já pouco me incomoda. No início, sentia algum constrangimento. Agora, olho-os nos olhos e digo "sim, é uma mesa só para mim, por favor". Uma mesa de quatro com apenas uma refeição servida. E eu como, calmamente.

 

Regresso à minha varanda. Hoje, pouco mais vi de Castelo de Vide do que as palmeiras do hotel. Dou por mim a concordar com o livro que acabei de ler. Uma pessoa permanentemente feliz deixa de se aperceber da felicidade. Tal como as viagens: são mágicas pela sua finitude. A plenitude da felicidade é percebida após a plenitude da tristeza. Sou a favor de emoções fortes, de sentimentos arrebatadores. Nos últimos meses, tenho vivido e tenho sentido, mas falta-me profundidade. Falta loucura! Onde estão os sentimentos gritantes? Onde está o ruído e a revolta? Onde está a paixão? Onde está o abraço? Aquele abraço que fica, que não foge e que não vai a lado nenhum?

 

 

Tenho saudades tuas. Já as tive antes, é verdade. Mas hoje, insisto, tenho saudades tuas.

 

Depois de tudo, vivemos juntos. Não como alguma vez possa ter imaginado ou desejado. Mas a convivência do dia-a-dia fez crescer, entre nós, uma amizade que achei impossível. Sinto-me bem ao teu lado. Sinto-me, sobretudo, eu. Conheces-me de forma genuída, real, sem máscaras, de cara lavada e óculos, antes de me deitar. Conheço a tua voz rouca da manhã, de olhos mal abertos, quando te sentas para fazer as tuas torradas. Conheço os teus livros desarrumados na sala, o dicionário estragado, o lápis minúsculo e roído na ponta. Sei que lês na varanda e que paras, de tempos a tempos, e ficas absorto nas tuas meditações, com os teus olhos de pestanas grandes perdidos no horizonte curto do prédio da frente. Rimo-nos, rimo-nos muito. Orgulhamo-nos das nossas plantas que vão crescendo, ficamos tristes quando murcham. Somos criativos e artistas. Somos cozinheiros cada vez mais talentosos. Partilhamos os nossos doentes e peripécias da vida.

 

Mas, deixa-me hoje, só hoje, ter saudades tuas. Saudades do nervoso miudinho, da mão a tremer, da antecipação do beijo, que já só recordo em esboço. Da vontade de te conhecer mais e mais, de me dar a conhecer. Da vontade do teu abraço, apenas do teu abraço. Do presente que nunca existiu, que nunca deixaste existir. Da dúvida e da espera interminável. De que me vejas, não apenas que me olhes. Nunca me viste, realmente...corrijo, nunca me quiseste ver. E estive sempre aqui. Estou aqui.

 

 

Suspiro. Olho as memórias espalhadas na mesa. Não sei se as guardo ou se as deito fora. Estou longe e, deliberadamente, só. Na varanda, os pássaros calaram-se e a noite está quente.

Deito-as fora.

 

 

 

to be continued...

 

 

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