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The Middle Way

Blog humanitário e reivindicativo da liberdade e felicidade de todos, até do próprio planeta.

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03
Fev18

A viagem - uma história #8

JR

Setembro de 2012

 

VIII

 

Desta vez, custou-me seguir em frente. Mas, Brangança esperava ansiosamente pela minha chegada. Antes de deixar o Côa e o Douro, com a nostalgia de uma despedida, fui comprar duas garrafas de vinho às caves de Pocinho e subi, sorvendo a paisagem, ao miradouro de Santa Bárbara, em Mós. O resto do caminho foi perdendo a beleza sem igual do Douro. A maior parte das estradas até Bragança parecem estar em obras intermináveis, sendo um aglomerado de betão, alcatrão e poeira castanha que me sujou o carro. A meio caminho, parei em Mirandela. Paragem estratégica para almoçar uma das suas famosas alheiras. O empregado de mesa, sempre brincalhão, lá me trouxe um fabuloso exemplar com todas as calorias a que tinha direito. Perguntei onde podia comprar aquelas mesmas alheiras, dirigi-me à loja indicada e lá vim eu, contente, com o meu petisco no porta-bagagens.

 

Chegar a Bragança foi um alívio! Tinha conseguido! Cheguei ao norte de Portugal! Quase a tocar Espanha! 

A pousada da juventude estava, pela primeira vez, repleta de gente, brasileiros em maioria. Jovens acabados de chegar para um ano de Erasmus. Trocámos umas palavras enquanto eles bebiam cerveja portuguesa, prontos a iniciar mais uma noitada de fim-de-semana. Lembrei-me, com nostalgia, dos meus primeiros tempos em Praga, naquele já longínquo ano de 2008.

Bragança é atravessada por um rio que parece estar a morrer, com pouca água estagnada. De qualquer maneira, tem um centro histórico acolhedor, que  me recebeu alegremente naquele fim de tarde. Acabei por me juntar à população numa das muitas manifestações contra a austeridade que decorreram por todo o país. Esta, muito mais modesta, mas com o mesmo empenho e indignação. Ouviram-se palavras de ordem, cartazes espalhados ao longo da praça, caras sérias e tristes. Numa das maiores manifestações que o país viu desde 1974, fiquei orgulhosa do povo português, da nossa perseverança e pacificidade, da nova geração que se levanta e luta por um futuro neste país que, apesar de pequeno, se eleva em beleza, história e determinação. O meu país que agora descubro.

 

Janto uns noodles rápidos e baratos, preparados na cozinha do alberguista, enquanto ouço as conversas animadas dos brasileiros, contando as suas peripécias. Parece que acabei de entrar numa das muitas telenovelas que passam, diariamente, nos canais portugueses.

 

 

Cheguei a Praga às seis da manhã. Lembro-me, perfeitamente, da primeira vez que a vi, naquela manhã fria e cinzenta, da janela do carro de Petr, o nosso buddy que, gentilmente, nos foi buscar ao aeroporto. Começava o meu ano de Erasmus, aquele que foi dos marcos mais importantes da minha vida, o grande ponto de partida para a minha independência. 

 

Hostivař é uma das zonas da periferia da cidade e é uma zona feia. Ficamos alojadas na residência universitária, um conglomerado de edifícios brancos e azuis, autênticos caixotes cheios de janelas. Mas, na verdade, aquele corredor do 6º piso foi o sítio mais acolhedor que podíamos ter encontrado. Rapidamente, formamos a nossa pequena família: portugueses, espanhóis, franceses e uma polaca. Tornámo-nos inseparáveis. Até hoje.

 

Praga é um conto de fadas. Relembro, inúmeras vezes, aquelas ruas pequenas de edifícios restaurados, coloridos, intricados. Acordávamos sempre de manhã cedo, ainda escuro, e fazíamos 40 minutos no tram 22 até o nosso hospital. Parece que ainda sinto o frio doloroso na cara, o reclamar dos ossos e o barulho dos pés ao pisar a neve fofa acabada de cair das nuvens. Tiritávamos de forma incontrolada, apesar do gorro enfiado até ao pescoço, do casaco apertado ao máximo e das luvas nas mãos. Mas Praga nevada, em plena época de Natal, com os seus Christmas´markets ficará, para sempre, na minha memória. O cheiro do trdlo acabado de fazer, o fumegar do hot wine nas nossas mãos e um grupo animado de Erasmus a cantar múscias de Natal por baixo de um pinheiro iluminado gigante.

Fiz, em plena Europa central, dos melhores amigos que levo comigo para a vida. Foi lá que cresci, que conheci mundo! Tudo nos era possível, tínhamos a liberdade nas mãos e vontade de a experimentar ao máximo. Em poucas horas eram decididas e planeadas viagens e, dias depois, lá estávamos nós a entrar para um autocarro, de mochila às costas e aventura como destino. Outras vezes, já fartos do frio da neve, ficávamos sentados, pela noite dentro, na carpete suja do corredor, a provar as deliciosas iguarias de vários países, acompanhadas pelo habitual meio litro de Kozel ou Pilsner fresquinhas. Viajávamos, apenas, nas nossas conversas, no partilhar de histórias e de diferentes culturas. Estar em Erasmus é estar no mundo inteiro ao mesmo tempo.

 

É difícil resumir um ano como aquele, em que tanto aconteceu e em que tudo mudou. Eu mudei. Fui para lá sem conhecer ninguém. Ia habituada à rotina de Coimbra, ao vaivém das festas académicas, dos encontros na Praça da República, da família perto. E, de repente, aterrei naquela cidade estranha, rodeada por milhares de jovens estrangeiros, cada um com o seu inglês de sotaque engraçado. Saí de lá com a certeza de que sou capaz de sobreviver, que me consigo adaptar às circunstâncias. Praga abriu-me as portas do mundo e despertou-me a curiosidade e a vontade de fazer mais, conhecer mais, saber mais. Ser mais.

 

***

 

Senti uma felicidade incontrolável quando te vi chegar naquele avião. O abraço apertado que me deste, que me elevou do chão por segundos, trouxe-me o Portugal que tinha deixado para trás. Queria mostrar-te tudo, partilhar aquele meu novo país contigo, mostrar-te o meu corredor, a neve nos telhados, as casas, as caras. Tinha saudades tuas. Tive sempre saudades tuas, apesar de adormecer, todas as noites, com a tua fotografia colada na parede ao lado da cama, perto da almofada.

 

E, portanto, lá estavas tu no meio da neve, com o gorro branco que te tinha dado enfiado na cabeça e o teu casacão de quadrados. Gostava de te ver lá, com o teu sorriso familiar de dentes que não se tocam, sentado no banco da frente do tram. Fazia todo o sentido estarmos juntos e, naqueles primeiros dias, Praga foi perfeita contigo. Tinham-se passado 6 meses desde a nossa despedida. Naqueles dias, enquanto olhava para ti, tive a certeza de que nunca nos iríamos separar. Não consigo explicar como, mas essa certeza cresceu em mim, minuto após minuto, na felicidade estonteante de te ter lá e de te querer lá. Foi uma certeza que se insuflou, cresceu, ganhou altura...

 

...e depois se estatelou no chão. É engraçado como as coisas mudam em instantes. Lembro-me tão bem desse momento em que deixei pousar, descontraidamente, os meus olhos na tua conversa virtual. O coração assustou-se e o corpo gelou. Não estava a compreender. Não queria compreender.Não era possível. Não. Não podia ser. Olha para mim, não vês? Sou eu. Eu. Era suposto ficarmos juntos, não sentes? Sentes. Dás-me as mãos. Abraças-me. Explicas. Desculpa as lágrimas, mas não as consigo controlar. Tremo. Lembras-te de como fomos felizes antes? Não me perdoas nunca e eu diminuo-me no teu abraço. Culpas-me. Culpo-te. Culpo-me. Vê como Praga se tornou feia. Vê como chove e eu não me importo. Tudo é cinzento do alto de Petřin e as ruas passam rápido pela janela do tram e não as vejo. Não consigo ver nada. Sinto apenas o nó na garganta e o erro em que tornámos o futuro.

Não vás ainda, dá-me a tua mão. O futuro vem depois e estás aqui. Ainda somos os mesmos hoje. Amanhã começamos a andar em sentidos opostos. Vamos fingir que tudo está bem. Lembras-te de como ríamos juntos? A tua face esquerda, a minha preferida. O alto na tua sobrancelha por causa do piercing. Os teus ossos salientes. O tempo passou. Voltamos atrás?

 

Se não fosse Praga, talvez ainda estivéssemos juntos. Aquele ano separou-nos definitivamente. Ganhei Praga e perdi-te. Naquela manhã, acordamos e levei-te ao aeroporto. Lembro-me que fizemos aquele caminho em silêncio, olhos nos olhos, de mãos dadas nos solavancos do autocarro, com a tua mala aos nossos pés. Conhecia-te tão bem...! Os teus olhos, o teu modo de olhar, o lábio inferior mais saliente. Deste-me o último beijo antes de embarcares. O último beijo da nossa história. Não houve mais carinho entre nós. Aquele avião levou-te.

 

 

To be continued...

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22
Jan18

A viagem - uma história #6 e #7

JR

Setembro de 2012

 

 

VI

 

Quero uma casa em Monsanto. Pequena, com poucas divisões, de varanda virada para o pôr-do-sol e tendo, como parede, um pedregulho.

 

É um sítio que transborda paz, em todos os cantos da vila, com pedras enormes, lá no alto, quase a tocarem o céu. E o chilrear dos pássaros, à tardinha, preenche o silêncio. Chegar ao castelo é cansativo, mas totalmente compensador. Quem me deu as indicações precisas do caminho a seguir foi um senhor americano, de cabelo comprido, loiro, e longo bigode farfalhudo: "You just go straight up from here. Follow this road and you´ll find some beautiful, beautiful things". Pelo caminho, encontrei galinhas e um porco numa pocilga, revestida a pedra antiga e atapetada de maçãs podres que ele comia com vontade. Lá no alto, no ponto mais alto, sentimo-nos donos do mundo, como se mais nada estivesse acima de nós. A vista devolve-nos anos de vida, coragem, força, determinação. Por isso mesmo, sublinho, quero uma casa em Monsanto.

Deixei-me ficar no castelo durante um bom bocado. Queria gravar, de qualquer forma, aquela imagem na memória, para poder voltar a ela sempre que quisesse. Agora, apenas à distância de um dia, queria ser capaz de descrever todas as tonalidades que vi, mas já não consigo. No caminho de regresso, encontro uma senhora, vestida de preto e de cabelos brancos, a dormir sentada,  cabeça pendente, num banco de pedra. Silenciosamente, tirei uma fotografia. Voltei-me para seguir caminho, quando ela me chama - "Ah, veja lá! Estou com uma soneira! Venha aqui ver as marafonas, para ver se acordo". "Pois, deixe lá...depois de almoço é mesmo hora para ter sono" - brinquei enquanto avançava para o cestinho cheio de bonecas. "São todas ao mesmo preço. Aquelas pequenas têm um íman para pôr no frigorífico." - explicou - "é a minha filha que as faz". Eram, realmente, engraçadas. Fiquei a saber que as marafonas, estas bonecas de vestidos coloridos e cabeça branca, eram usadas em rituais de fertilidade. "Até já estive no Porto, naquele programa da Praça da Alegria" - gabou-se. Sorri, pedi desculpa por não comprar nenhuma, mas estava sem dinheiro e o multibanco ficava a uns quilómetros de distância.

 

Estou, portanto, nas Beiras. Tudo à minha volta me parece familiar, desde a paisagem rochosa, granítica, ao cheiro dos pinheiros. Aproximo-me da Guarda, o meu próximo repouso. Chego ao fim do dia, faço o check in no Hotel e deito-me a dormitar uma hora antes de sair.

A zona central da Guarda é acolhedora. À volta da Sé espreguiçam-se ruas estreitas pitorescas com cafés e esplanadas. Sento-me numa delas e escrevo um postal de cortiça, que comprei a um senhor, enquanto me refresco com uma cerveja fresquinha. Decido jantar no quarto do hotel, para poupar algum dinheiro. Faço uma salada rápida. Viajar assim, por Portugal, não fica barato e estamos em crise. Aproveito a boleia e encosto-me na cama a ouvir o discurso do nosso Primeiro Ministro, senhor ilustre, que nos diz, calmamente, que estamos todos lixados.

 

 

VII

 

Rectifico. Quero uma casa algures no Vale do Côa. Não apenas uma casa, quero uma quinta com videiras, oliveiras e amendoeiras em flor. Quero produzir vinho, azeite e acordar para a vastidão de flores brancas! 

 

A manhã, na Guarda, começou como todos os outros dias, com o pequeno-almoço  a que já estou habituada. Assim que peguei no carro, apesar de me sentir confiante ao volante, acabei por me enganar e apanhar uma auto-estrada. Mais um desperdício de dinheiro! Assim, quase sem querer, cheguei a Almeida por Trancoso. Almeida, a cidade muralhada mais impressionante de Portugal, com as suas fortificações em forma de Estrela. Contudo, depois de tanto ter calcorreado Portugal, e de ter encontrado recantos tão bonitos, Almeida não me impressionou. Dei a volta à muralha, sentei-me a comer uma pêra e segui caminho.

 

Decidi parar em Castelo Rodrigo. Segundo o mapa, era a paragem seguinte mais lógica. Ao chegar à rotunda que me levaria ao castelo, lá no alto, reparo numa placa que indicava o caminho para um miradouro na Serra da Marofa. Nem mais! "Vamos lá inovar!" - pensei eu. Subi, subi muito, numa estrada ora ladeada por pinheiros, ora por um precipício à direita. Tentei concentrar-me na estrada à minha frente, resistindo à paisagem absolutamente deslumbrante, que adivinhava pelo canto do olho. Ao longo da subida, vão aparecendo pequanas casinhas de pedra que, no seu interior, albergam pinturas cristãs. Chegar ao cume, foi das melhores surpresas desta viagem! Lá no topo, uma estátua de Cristo recebe-nos de braços abertos. Uma espécie de Cristo-Rei em ponto pequeno. Mas ele lá está, abrindo os braços sobre  Castelo Rodrigo, como quem a protege e abençoa.

 

O resto do caminho levou-me, por fim, ao vale do Côa e ao Douro vinhateiro, onde hei-de regressar vezes sem conta. Tinha ideia de chegar a Foz Côa e tentar, a todo o custo, conseguir uma visita guiada às pinturas rupestres. Mas, assim que pus os olhos naquelas montanhas de um verde intenso, ordenado em fileiras de videiras e oliveiras, numa disposição quase milimetricamente pensada, criando padrões de verde no horizonte, não resisti a deambular por ali. 

A pousada da juventude fica mesmo à saíde de Vila Nova de Foz Côa e as suas traseiras dão para os montes. Perguntei, na recepção, pela praia fluvial mais próxima. Queria mergulhar no Douro. Vesti o bikini o mais rápido que consegui e saltei, sorridente, para o carro em direcção a Pocinho. Admito que a praia fluvial não era tão agradável quanto estava à espera, mas o calor das quatro da tarde e o verde azulado da água convenceram-me a dar um mergulho, apesar do musgo que flutuava à superfície. Um pouco mais à minha esquerda, dois amigos estavam sentados a pescar. Pelo que me fui apercebendo, através das palavras pouco animadas que iam trocando,  a pescaria não estava a correr muito bem. A verdade é que, enquanto estive por ali deitada ao sol, para além do zumbido persistente das moscas moles que voavam à minha volta, ouvi várias vezes peixes a mergulhar nas águas.

 

 

To be continued...

 

Acabei o dia em conversas, um tanto ou quanto filosóficas,  com um amigo, ao jeito de antigas conversas cibernáuticas do passado. Adormeci pensando, seriamente, no conceito de felicidade, de paixão, de ponto fraco e defeito. Sonhei com o Douro.

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19
Dez17

A viagem - uma história #3

JR

Setembro de 2012

 

III

 

Acordei para uma manhã solarenga. Abri as cortinas para deixar entrar a pálida luz e deixei-me dormitar um pouco mais. O hotel pareceu-me estranhamente vazio, com poucos carros no parque de estacionamento. Demorei até encontrar a sala do pequeno-almoço. Depois de uma sandes de queijo e de um café revigorante, lá arranquei rumo ao Alto Alentejo. Ao longo destes três dias, tenho-me apercebido de que uma boa banda sonora no carro influencia bastante o nosso estado de espírito. Com isso em mente e com uma boa dose de energia, deixei tocar bem alto os hits da minha adolescência, na voz de Fred Durst - e na minha. E assim, gritando raivas acumuladas pela janela do carro, cheguei a Vila Viçosa.

 

Por sorte, estamos no último dia das festas dos Capuchos. A praça principal da terra estava cheia de pessoas andando, de um lado para o outro, de cerveja na mão. Outras encostavam-se a um estrado de madeira que delimitava uma espécie de recinto que tinha, como ponto central, uma fonte de pedra. Foi então que ouvi um estrondo! Com curiosidade, furei a multidão e, também eu, espreitei através das grades. Dei de caras com um touro grande, preto e pachorrento. Aparentemente, era o touro 36, segundo a inscrição que trazia no dorso. "Ah! Este mexe-se mais que o de ontem! Pelo menos, já corre pelo recinto todo. O de ontem ficou-se ali por cima" - disse-me, apontando, uma senhora de chapéu na cabeça que se aproximou de mim. "Lançam um touro por dia?" - perguntei. "Não, não! São três. Hoje ainda tem mais dois para ver". 

Olhei para o touro e achei-o tudo menos energético. Olhava confuso para todas as pessoas que o incitavam e, de vez em quando, lá investia. Os corajosos forcados amadores, nas suas camisas brancas e óculos Ray Ban, corriam desalmadamente para o ponto elevado mais próximo. Decidi deixar a multidão animada a cansar o pobre bicho e fui ver o castelo.

Como calculei, estava vazio. Entrei na igreja, sentei-me um pouco ao fresco, voltei a sair e decidi entrar no cemitério. Logo à entrada, a campa de Florbela Espanca! Ah! Como eu devorava os poemas dela! Li-os muitas vezes, nas alturas tristes, partilhando a mágoa e solidão que ela tanto descrevia.

Regressei, depois de um passeio rápido pela vila, para a zona animada da festa dos Capuchos. O mesmo touro, o tal 36, lá andava de um lado para o outro, babando-se de cansaço. Olhos desnorteados, narinas abertas da respiração ofegante, tentando decidir qual dos corajosos merecia mais um pouco do seu esforço. Com tamanha indecisão, achei que era altura de ir almoçar uns pézinhos de coentrada, antes de rumar a Borba.

 

O caminho entre Vila Viçosa e Borba está cheio de pedreiras de mármore. Pedras brancas gigantes, amontoadas, como se tivesse havido, na noite anterior, uma chuvada de pedras. Lá mais para a frente, como estava à espera, as vinhas. Estas mantêm-se durante o resto do caminho e multiplicam-se até Elvas.

O centro histórico de Elvas está dentro de grandes muralhas protegidas, ainda, por um fosso fundo. À volta da cidade, existem mais dois fortes, o forte da Graça e o de Santa Luzia, que nos propiciam uma vista magnífica do alto do Castelo. Pela primeira vez, fiquei a dormir em casa de amigos. Lá consegui exercitar a minha voz. As conversas desenrolaram-se, cada vez mais fluidas, durante um óptimo jantar alentejano de migas de espargos e hortelã, regado com um bom vinho regional alentejano recomendado pelo empregado de mesa, que era brasileiro. Encontrava-me entre um engenheiro e uma médica. 

O dia acabou com uma volta nocturna pela cidade velha. Assim, à noite, a cidade ganhou um encanto especial. E foi aqui, em Elvas, que pela primeira vez senti falta de ter alguém comigo, ao meu lado, nesta viagem. As muralhas iluminadas, no meio da ventania forte que se fazia sentir naquela noite estrelada, merecia um abraço, com Badajoz no horizonte.

 

 

Fechei a porta atrás de ti.

 

Quando entraste, naquela noite, sabia que tudo tinha um jeito de despedida. Trouxeste tu a garrafa de vinho e eu não fiz jantar. Sentia um nervosismo resignado, bem diferente do nervosismo expectante das outras vezes. Sempre me deixaste nervosa, como quem não sabe onde pôr a mão, como colocar a voz, qual a palavra certa.

Conhecia-te de histórias, de longas e míticas histórias dos teus tempos de rebeldia e, a princípio, foi difícil associar-te, a ti fisicamente, à personagem que tinha criado no meu imaginário. Mas, foste marcando presença no meu dia-a-dia e eu deixei. Falar contigo começou a ser fácil. Sempre fui uma pessoa mais de palavras escritas do que faladas, mas tu fazias questão de me ouvir e de te fazeres ouvir. E eu ouvi, ouvi sempre. Já não tinha como fugir, como estar longe de ti. Foi tudo tão rápido, parecia tudo tão magnificamente irreal, mas forte e intenso e perigoso. 

Foi assim que eu vivi a nossa história.

 

***

 

Portanto, fechei a porta atrás de ti, depois do beijo e do abraço, e chorei. Fiquei encostada à porta a tentar ganhar coragem para chamar por ti pela janela, ou à espera que tu fizesses o mesmo. Mas deixei passar os minutos e secar as lágrimas. Foste-te embora e eu fiquei, irremediavelmente, à tua espera.

 

Durante a tua ausência, revivi os momentos que tínhamos passado juntos, as conversas, as tuas expressões por detrás das palavras. A cidade rendeu-se ao frio de Dezembro e eu coloquei a minha pequena árvore de Natal ao pé da janela. Luzes coloridas na escuridão propositada da casa. Nessa escuridão, enchia o copo de vidro vermelho com vinho e olhava, sem ver, a rua de calçada portuguesa através da janela. Pensei em ti, desmedidamente. Via-nos, ainda, no sofá desconfortável da sala, nas longas noites de conversa que partilhávamos. Quando agora penso em ti, lembro-me do frio das ruas, do aconchego de estar em casa, dos pés molhados da chuva. Lembro-me dos telhados das casas e do rio ao fundo, do céu estrelado do Alentejo. Lembro-me do pulso acelerado, dos papéis escritos, das memórias que guardei para depois partilhar contigo. Lembro-me do tempo que nunca mais passava, principalmente, desse tempo que nunca mais passava.

Foste o meu Verão e o meu Inverno.

 

***

 

Acho que nunca te apercebeste do quanto de mim levaste contigo na viagem. Voltaste incompleto e não te voltei a abrir a porta. Quando dei por mim, estava sozinha com as mãos cheias de um amor que guardei, inútil e estúpido. A porta fechada. A árvore de Natal guardada na caixa, o início da Primavera lá fora. O tempo que tinha, afinal, passado e o sofá vazio. O Alentejo lá longe.

 

 

 

...to be continued.

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01
Dez17

A viagem - uma história #1

JR

Setembro de 2012

 

I

 

 As viagens começam no momento que decidimos fazê-las. Esta, que agora faço, começou numa bela tarde de Verão, em Lisboa. Descia eu, na altura, a longa Avenida da Liberdade, procurando a sombra das árvores para tentar suportar o calor. Ia em silêncio porque ia sozinha. E estava feliz. Não foi assim há muito tempo que comecei a gostar de estar sozinha mas, a partir do momento que fiz as pazes comigo mesma, o meu espaço ganhou aconchego. Talvez tenha sido a alegria pachorrenta desse dia quente, talvez o próprio nome da avenida, que me fez tomar esta decisão: vou conhecer, sozinha, o meu país. E, ali mesmo, começou a viagem...

 

...que me trouxe até este quarto de hotel, em Beja. Primeiro dia, primeiros quilómetros. Acordei cedo, sem aquele sono típico de quem desperta para mais um dia de trabalho. Bebi o café, mais por hábito do que por necessidade, atirei a mochila para o carro e sorri para o volante. "Aqui vou eu!". E, assim, galguei sem pressas a Serra do Caldeirão. Janelas abertas, mão fora do vidro rindo-me, ocasionalmente, com o nome de terriolas perdidas nas encostas, no meio da pouca vegetação que sobreviveu aos já habituais incêndios de verão. 

 

A chegada a Mértola é, simplesmente, deslumbrante! O castelo lá no topo, bem no topo daquele escarpado, acessível por uma ponte estreita. As casas brancas nas ruas velhas, coloridas aqui e ali por flores nos beirais e roupas estendidas ao sol tórrido. O Guadiana lá em baixo, lento. E toda aquela solidão das ruas vazias de pessoas. Por estes lados, as terras são sonolentas.

 

Depois de um mergulho inesperado numa praia fluvial, cheguei às antigas Minas de São Domingos. Entrar naquele complexo mineiro é como dar um passo para uma outra época. O sítio é amplo, largo, de terra castanha e vermelha, fervente sob o sol da uma da tarde, engolindo aqueles destroços gigantes, de oficinas enormes, canos enferrujados e pedras que tombaram no caminho. O cheiro a metal, enxofre...e um lago parado de cor amarela, rodeado de pedra corroída, pontiaguda, atrás de um letreiro que avisa: "águas contaminadas". E o silêncio pesado de vozes que se calaram no tempo. Parece que estamos a testemunhar o assassinato de toda uma povoação e de toda uma história e se, naquele momento, tivesse ouvido um grito rasgar o vento não me surpreenderia. A verdade é que, aquele sítio, é agradavelmente assustador.

E segui caminho até Beja. Na calmaria, de tempo e de espírito, aumentei o som do rádio ao máximo e partilhei o pôr-do-sol com o Bob Dylan.

 

Éramos tão novos! Na altura, claro, não nos apercebemos disso. Começou inesperadamente. Lembro-me, como se fosse hoje, da piscina iluminada e do "adoro-te" que tinhas escrito no papel colado na parede da casa. Tinhas feito anos. Guardei a foto que tiramos nessa noite durante anos! Agora que penso nisso, não era uma foto propriamente bonita: eu de cabeça colada à tua sweatshirt azul escura, tu bem mais alto que eu, de queixo quase pousado no meu cabelo e de olhos fechados. Mas aquela foto permaneceu e alongou-se nos meus dedos durante seis anos. Tal como o abraço.

 

No alto dos meus quinze anos, tinha medo. Tinha medo de duas coisas: que ficassemos juntos para sempre e de te perder. Naquela altura, tinha o incómodo desejo de querer sempre mais do mundo e da vida.

 

Nunca duvidei que nos amássemos. Na realidade, ao longo dos anos, foi isso que nos uniu sempre. Isso e a inesgotável cumplicidade que criamos. Cresci contigo, crescemos juntos. A determinada altura, era impossível existir sem ti, o meu mundo era o teu. Erro, após erro, após erro. É como digo, éramos novos. Eu era nova.

 

Sabia, exactamente, como tu eras. Fechava os olhos e via-te, como se realmente te estivesse a ver, lado a lado antes de dormirmos. Durante anos conseguia descrever-te mentalmente, em jeito de matar saudades. Guardei, na mão fechada, o sentir-te.

E passaram-se, num ápice que agora me pesa, dez anos. Dez anos! O tempo fez-nos crescer em sentidos opostos. Nunca largamos os ressentimentos, por muitos que foram. A primeira vez que me vi, definitivamente, sem ti foi um total reaprender a viver. Lá dizem os antigos que, nessas alturas, nos apercebemos o quanto de outra pessoa trazemos em nós. Em pequenas coisas senti, imensamente, a tua falta. A vontade de partilhar pensamentos banais contigo queimava-me a voz e a saudade do teu abraço de braços grandes esmagava-me o corpo. O facto é que nos obrigamos a viver com tudo isso e nos habituamos a uma certa forma de dor. O tempo empurra-nos, por mais que nos agarremos às paredes.

 

Ter-te e ter-te perdido foi, atrozmente, importante para mim. Hoje, lembro-te, como quem faz luto de um amor que perdura em dois adolescentes que morreram.

 

 

 

to be continued...

 

 

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05
Out17

Resgatei páginas do baú #1 - urgência

JR

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Sala de pequena cirurgia. Dia de jogo de futebol.

 

17 horas. Chego cedo, aliás! Deixei, para trás, a cerca de 300 Km, a mesa da cozinha da minha avó ainda com resquícios da sobremesa comida à pressa. Tinha de os ver, após tantos meses de ausência. Estamos em Abril e chove a água de toda uma vida! Os carros passam, buzinando, com os cachecóis desportivos presos às janelas, ensopados pela água da chuva. Alguns caídos na estrada-rio, atropelados pelos carros apressados. Sei que me vou atrasar.

 

Entro de salto alto no hospital, ainda com a mala de fim-de-semana ao ombro, em passo firme e rápido. Levo comigo o livro que tento acabar há vários meses e o cansaço de urgências acumuladas, em horas de vigília dolorosa, já fisicamente dolorosa. Resigno-me à evidência que interno tem de sofrer para ganhar mão. Ninguém quer um interno fraco!

 

Desço as escadas na esperança de uma noite calma. Mas temos campeão! Há que assinalar o facto! Há que o celebrar majestosamente! Que nunca este dia seja esquecido! 

Lancemos petardos! Empoleiremo-nos no Marquês! Atiremos garrafas de vidro para o infinito! O amanhã ainda tarda, as horas são lentas e a urgência do hospital está sempre de portas abertas. Mostremos a garra do povo português, a verdadeira garra. Nada menos que isso!

 

23 horas. Do lado de fora da sala, a mancha colorida vai-se acumulando. Nas cadeiras, cachecóis ensanguentados são pousados desinteressadamente. As cabeças, sujas de sangue, são encostadas à parede para descansar, um pouco, a cerveja da vitória.

 

Entram aos poucos. Lá dentro, os sacos brancos enchem-se de compressas. Ajudamo-nos, nós internos, como podemos. Tentamos rir para espantar a fome. No computador, a lista de espera aumenta. Entra o auxiliar de ficha na mão - "Mais um adepto!". Chamamos o ferido ligeiro. Lá fora, ouvem-se vozes exaltadas, ferozes. Alguém quer tornar aquele ferido ligeiro em ferido grave. "É melhor chamarmos a polícia...". Entra um senhor para os directos, rapidamente rodeado por batas verdes. Alguém fecha a porta.

 

Fazemos conversa com o rapaz, para lhe aliviar a dor. Ia apenas levar a namorada a casa...

Acalma-se, já sem dor. Pelo menos, ainda temos lidocaína que funciona! Compensa o fio que se parte, a agulha que se solta e a compressa que se desfaz. Interno que é interno, trabalha com qualquer material. 

O rapaz muda. Fica pálido, disártrico. Arrasta a voz, está nauseado.

- "Preciso de ajuda!"

- "Vejam a tensão arterial. A glicémia".

Todos à minha volta a tentar perceber o que se passa. Eu de porta-agulhas na mão e uma sutura complexa por terminar. Dou mais um ponto enquanto deito um olho ao rapaz. Estará tudo bem? Acabo a sutura, de mão titubeante e ombros tensos. Tudo se resolve, o rapaz arrebita.

 

Expiro o stress acumulado e pico o dedo na agulha ao arrumar o material.

- "#!+=^@"

- "Venha já lavar a mão, doutora! Expurgue o sangue"

- "O rapaz está bem?"

- "Sim, está. Venha preencher o papel dos acidentes de trabalho"

- "Está bem. Peçam as serologias, por favor"

Calço novas luvas, desta vez dois pares (quem me manda ser descuidada...?) e acabo de fechar o penso.

 

5 horas da manhã. Jantei duas coca-colas. Ainda não preenchi a folha do acidente, a lista mantém-se longa, os adeptos derretem-se pela sala de espera, de ligaduras a tapar feridas intermináveis. O ferido que deu entrada nos directos terá ido para o bloco operatório.

- "Ninguém me atende? Estou há 4 horas à espera!" - gritam pela porta. 

Não podemos parar. Ainda há trabalho e é para isso que ali estou. A culpa nem é dos adeptos, é de quem faz as garrafas de vidro. Já não há respeito pela alma lusitana...

Tiro luvas. Ponho luvas. Endireito as costas. Limpo os óculos salpicados de sangue. Olho para o relógico analógico de números vermelhos que está pendurado na parede.

 

8 horas da manhã. Pego no saco de fim-de-semana e no livro fechado. Vou para casa esperar pelo resultado das serologias. Mais vale dormir qualquer coisa. Tenho de estar fresca para amanhã, que é dia de bloco operatório.

 

 

 

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