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The Middle Way

Blog humanitário e reivindicativo da liberdade e felicidade de todos, até do próprio planeta.

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05
Out17

Resgatei páginas do baú #1 - urgência

JR

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Sala de pequena cirurgia. Dia de jogo de futebol.

 

17 horas. Chego cedo, aliás! Deixei, para trás, a cerca de 300 Km, a mesa da cozinha da minha avó ainda com resquícios da sobremesa comida à pressa. Tinha de os ver, após tantos meses de ausência. Estamos em Abril e chove a água de toda uma vida! Os carros passam, buzinando, com os cachecóis desportivos presos às janelas, ensopados pela água da chuva. Alguns caídos na estrada-rio, atropelados pelos carros apressados. Sei que me vou atrasar.

 

Entro de salto alto no hospital, ainda com a mala de fim-de-semana ao ombro, em passo firme e rápido. Levo comigo o livro que tento acabar há vários meses e o cansaço de urgências acumuladas, em horas de vigília dolorosa, já fisicamente dolorosa. Resigno-me à evidência que interno tem de sofrer para ganhar mão. Ninguém quer um interno fraco!

 

Desço as escadas na esperança de uma noite calma. Mas temos campeão! Há que assinalar o facto! Há que o celebrar majestosamente! Que nunca este dia seja esquecido! 

Lancemos petardos! Empoleiremo-nos no Marquês! Atiremos garrafas de vidro para o infinito! O amanhã ainda tarda, as horas são lentas e a urgência do hospital está sempre de portas abertas. Mostremos a garra do povo português, a verdadeira garra. Nada menos que isso!

 

23 horas. Do lado de fora da sala, a mancha colorida vai-se acumulando. Nas cadeiras, cachecóis ensanguentados são pousados desinteressadamente. As cabeças, sujas de sangue, são encostadas à parede para descansar, um pouco, a cerveja da vitória.

 

Entram aos poucos. Lá dentro, os sacos brancos enchem-se de compressas. Ajudamo-nos, nós internos, como podemos. Tentamos rir para espantar a fome. No computador, a lista de espera aumenta. Entra o auxiliar de ficha na mão - "Mais um adepto!". Chamamos o ferido ligeiro. Lá fora, ouvem-se vozes exaltadas, ferozes. Alguém quer tornar aquele ferido ligeiro em ferido grave. "É melhor chamarmos a polícia...". Entra um senhor para os directos, rapidamente rodeado por batas verdes. Alguém fecha a porta.

 

Fazemos conversa com o rapaz, para lhe aliviar a dor. Ia apenas levar a namorada a casa...

Acalma-se, já sem dor. Pelo menos, ainda temos lidocaína que funciona! Compensa o fio que se parte, a agulha que se solta e a compressa que se desfaz. Interno que é interno, trabalha com qualquer material. 

O rapaz muda. Fica pálido, disártrico. Arrasta a voz, está nauseado.

- "Preciso de ajuda!"

- "Vejam a tensão arterial. A glicémia".

Todos à minha volta a tentar perceber o que se passa. Eu de porta-agulhas na mão e uma sutura complexa por terminar. Dou mais um ponto enquanto deito um olho ao rapaz. Estará tudo bem? Acabo a sutura, de mão titubeante e ombros tensos. Tudo se resolve, o rapaz arrebita.

 

Expiro o stress acumulado e pico o dedo na agulha ao arrumar o material.

- "#!+=^@"

- "Venha já lavar a mão, doutora! Expurgue o sangue"

- "O rapaz está bem?"

- "Sim, está. Venha preencher o papel dos acidentes de trabalho"

- "Está bem. Peçam as serologias, por favor"

Calço novas luvas, desta vez dois pares (quem me manda ser descuidada...?) e acabo de fechar o penso.

 

5 horas da manhã. Jantei duas coca-colas. Ainda não preenchi a folha do acidente, a lista mantém-se longa, os adeptos derretem-se pela sala de espera, de ligaduras a tapar feridas intermináveis. O ferido que deu entrada nos directos terá ido para o bloco operatório.

- "Ninguém me atende? Estou há 4 horas à espera!" - gritam pela porta. 

Não podemos parar. Ainda há trabalho e é para isso que ali estou. A culpa nem é dos adeptos, é de quem faz as garrafas de vidro. Já não há respeito pela alma lusitana...

Tiro luvas. Ponho luvas. Endireito as costas. Limpo os óculos salpicados de sangue. Olho para o relógico analógico de números vermelhos que está pendurado na parede.

 

8 horas da manhã. Pego no saco de fim-de-semana e no livro fechado. Vou para casa esperar pelo resultado das serologias. Mais vale dormir qualquer coisa. Tenho de estar fresca para amanhã, que é dia de bloco operatório.

 

 

 

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