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The Middle Way

Blog humanitário e reivindicativo da liberdade e felicidade de todos, até do próprio planeta.

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05
Jan18

A viagem - uma história #4

JR

Setembro de 2012

 

IV

 

Elvas ficou para trás. Sigo em direcção a Portalegre e à Serra de São Mamede por estradas nacionais. Temos de admitir, a grande maioria das estradas do nosso país estão em bom estado, permitindo que o carro deslize sem grandes solavancos. Decidi cortar à direita quando vi uma placa que dizia: Cidade romana de Ammaia. Esta é uma das principais vantagens de fazer uma viagem sozinha: a imprevisibilidade do impulso, a satisfação completa de apetites. 

Para visitar Ammaia, temos de pagar a modesta quantida de dois euros. Temos acesso a um museu e às escavações, que ainda estão em curso. De um modo geral, não sou uma pessoa de museus. Para visitar um museu, e para o aproveitar realmente, é preciso tempo. A mim, custa-me perder tempo dentro de quatro paredes. Mas hoje, lá fui eu. E foi uma agradável surpresa! O museu em si é pequeno e sucinto. O resto é ao ar livre, onde podemos pisar terra seca e ver gafanhotos saltar à nossa frente, a cada passo que damos. Dei por mim a imaginar a cidade na sua versão original,  com gigantescas colunas erguidas em amplas praças. Como é que se perdeu a beleza das antigas cidades romanas ao longo dos séculos? Como deixamos tal acontecer?

 

Marvão olha-nos lá do topo. É um lugar extremamente bonito, com vistas panorâmicas sobre a serra, simplesmente, deslumbrantes. Hoje, felizmente, estava praticamente vazia, com poucos turistas. Sentei-me numa esplanada e pedi a sopa do dia. A verdade é que me tenho tratado bem durante esta viagem. Mas, olhando para o menu, e fazendo contas ao dinheiro e à fome, achei que não era altura para experimentar mais um prato típico alentejano. Estamos em crise e a gasolina está cara. Para além disso, o meu organismo já se tem vindo a queixar da quantidade de calorias que tenho ingerido. Sim, a sopa era a escolha mais acertada.

 

E assim desci, curva apertada após curva apertada, até Castelo de Vide. Cheguei cedo, por volta das três da tarde. Carreguei a grande mochila, companheira de viagens, pelas escadas e cheguei ao meu modesto quarto no primeiro andar. O plano inicial era o de tomar um banho e aproveitar ainda o resto da tarde para dar uma volta e, talvez, jantar fora. Mas hoje, queria tudo menos seguir planos. Mergulhei na piscina fresca e dormitei ao sol, que nem lagarto. Sentei-me, pouco depois, na varanda e acabei o meu livro pousando-o, ocasionalmente, para ouvir o chilrear imenso dos pássaros no final da tarde. Senti uma paz imensa. E uma solidão vincada. Com o passar do tempo, a solidão a que me obriguei faz-se notar, cada vez mais nítida. Não me cruzei com mais nenhum viajante solitário. Nos hotéis, olham para mim com alguma estranheza e curiosidade, que já pouco me incomoda. No início, sentia algum constrangimento. Agora, olho-os nos olhos e digo "sim, é uma mesa só para mim, por favor". Uma mesa de quatro com apenas uma refeição servida. E eu como, calmamente.

 

Regresso à minha varanda. Hoje, pouco mais vi de Castelo de Vide do que as palmeiras do hotel. Dou por mim a concordar com o livro que acabei de ler. Uma pessoa permanentemente feliz deixa de se aperceber da felicidade. Tal como as viagens: são mágicas pela sua finitude. A plenitude da felicidade é percebida após a plenitude da tristeza. Sou a favor de emoções fortes, de sentimentos arrebatadores. Nos últimos meses, tenho vivido e tenho sentido, mas falta-me profundidade. Falta loucura! Onde estão os sentimentos gritantes? Onde está o ruído e a revolta? Onde está a paixão? Onde está o abraço? Aquele abraço que fica, que não foge e que não vai a lado nenhum?

 

 

Tenho saudades tuas. Já as tive antes, é verdade. Mas hoje, insisto, tenho saudades tuas.

 

Depois de tudo, vivemos juntos. Não como alguma vez possa ter imaginado ou desejado. Mas a convivência do dia-a-dia fez crescer, entre nós, uma amizade que achei impossível. Sinto-me bem ao teu lado. Sinto-me, sobretudo, eu. Conheces-me de forma genuída, real, sem máscaras, de cara lavada e óculos, antes de me deitar. Conheço a tua voz rouca da manhã, de olhos mal abertos, quando te sentas para fazer as tuas torradas. Conheço os teus livros desarrumados na sala, o dicionário estragado, o lápis minúsculo e roído na ponta. Sei que lês na varanda e que paras, de tempos a tempos, e ficas absorto nas tuas meditações, com os teus olhos de pestanas grandes perdidos no horizonte curto do prédio da frente. Rimo-nos, rimo-nos muito. Orgulhamo-nos das nossas plantas que vão crescendo, ficamos tristes quando murcham. Somos criativos e artistas. Somos cozinheiros cada vez mais talentosos. Partilhamos os nossos doentes e peripécias da vida.

 

Mas, deixa-me hoje, só hoje, ter saudades tuas. Saudades do nervoso miudinho, da mão a tremer, da antecipação do beijo, que já só recordo em esboço. Da vontade de te conhecer mais e mais, de me dar a conhecer. Da vontade do teu abraço, apenas do teu abraço. Do presente que nunca existiu, que nunca deixaste existir. Da dúvida e da espera interminável. De que me vejas, não apenas que me olhes. Nunca me viste, realmente...corrijo, nunca me quiseste ver. E estive sempre aqui. Estou aqui.

 

 

Suspiro. Olho as memórias espalhadas na mesa. Não sei se as guardo ou se as deito fora. Estou longe e, deliberadamente, só. Na varanda, os pássaros calaram-se e a noite está quente.

Deito-as fora.

 

 

 

to be continued...

 

 

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