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The Middle Way

Blog humanitário e reivindicativo da liberdade e felicidade de todos, até do próprio planeta.

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19
Dez17

A viagem - uma história #3

JR

Setembro de 2012

 

III

 

Acordei para uma manhã solarenga. Abri as cortinas para deixar entrar a pálida luz e deixei-me dormitar um pouco mais. O hotel pareceu-me estranhamente vazio, com poucos carros no parque de estacionamento. Demorei até encontrar a sala do pequeno-almoço. Depois de uma sandes de queijo e de um café revigorante, lá arranquei rumo ao Alto Alentejo. Ao longo destes três dias, tenho-me apercebido de que uma boa banda sonora no carro influencia bastante o nosso estado de espírito. Com isso em mente e com uma boa dose de energia, deixei tocar bem alto os hits da minha adolescência, na voz de Fred Durst - e na minha. E assim, gritando raivas acumuladas pela janela do carro, cheguei a Vila Viçosa.

 

Por sorte, estamos no último dia das festas dos Capuchos. A praça principal da terra estava cheia de pessoas andando, de um lado para o outro, de cerveja na mão. Outras encostavam-se a um estrado de madeira que delimitava uma espécie de recinto que tinha, como ponto central, uma fonte de pedra. Foi então que ouvi um estrondo! Com curiosidade, furei a multidão e, também eu, espreitei através das grades. Dei de caras com um touro grande, preto e pachorrento. Aparentemente, era o touro 36, segundo a inscrição que trazia no dorso. "Ah! Este mexe-se mais que o de ontem! Pelo menos, já corre pelo recinto todo. O de ontem ficou-se ali por cima" - disse-me, apontando, uma senhora de chapéu na cabeça que se aproximou de mim. "Lançam um touro por dia?" - perguntei. "Não, não! São três. Hoje ainda tem mais dois para ver". 

Olhei para o touro e achei-o tudo menos energético. Olhava confuso para todas as pessoas que o incitavam e, de vez em quando, lá investia. Os corajosos forcados amadores, nas suas camisas brancas e óculos Ray Ban, corriam desalmadamente para o ponto elevado mais próximo. Decidi deixar a multidão animada a cansar o pobre bicho e fui ver o castelo.

Como calculei, estava vazio. Entrei na igreja, sentei-me um pouco ao fresco, voltei a sair e decidi entrar no cemitério. Logo à entrada, a campa de Florbela Espanca! Ah! Como eu devorava os poemas dela! Li-os muitas vezes, nas alturas tristes, partilhando a mágoa e solidão que ela tanto descrevia.

Regressei, depois de um passeio rápido pela vila, para a zona animada da festa dos Capuchos. O mesmo touro, o tal 36, lá andava de um lado para o outro, babando-se de cansaço. Olhos desnorteados, narinas abertas da respiração ofegante, tentando decidir qual dos corajosos merecia mais um pouco do seu esforço. Com tamanha indecisão, achei que era altura de ir almoçar uns pézinhos de coentrada, antes de rumar a Borba.

 

O caminho entre Vila Viçosa e Borba está cheio de pedreiras de mármore. Pedras brancas gigantes, amontoadas, como se tivesse havido, na noite anterior, uma chuvada de pedras. Lá mais para a frente, como estava à espera, as vinhas. Estas mantêm-se durante o resto do caminho e multiplicam-se até Elvas.

O centro histórico de Elvas está dentro de grandes muralhas protegidas, ainda, por um fosso fundo. À volta da cidade, existem mais dois fortes, o forte da Graça e o de Santa Luzia, que nos propiciam uma vista magnífica do alto do Castelo. Pela primeira vez, fiquei a dormir em casa de amigos. Lá consegui exercitar a minha voz. As conversas desenrolaram-se, cada vez mais fluidas, durante um óptimo jantar alentejano de migas de espargos e hortelã, regado com um bom vinho regional alentejano recomendado pelo empregado de mesa, que era brasileiro. Encontrava-me entre um engenheiro e uma médica. 

O dia acabou com uma volta nocturna pela cidade velha. Assim, à noite, a cidade ganhou um encanto especial. E foi aqui, em Elvas, que pela primeira vez senti falta de ter alguém comigo, ao meu lado, nesta viagem. As muralhas iluminadas, no meio da ventania forte que se fazia sentir naquela noite estrelada, merecia um abraço, com Badajoz no horizonte.

 

 

Fechei a porta atrás de ti.

 

Quando entraste, naquela noite, sabia que tudo tinha um jeito de despedida. Trouxeste tu a garrafa de vinho e eu não fiz jantar. Sentia um nervosismo resignado, bem diferente do nervosismo expectante das outras vezes. Sempre me deixaste nervosa, como quem não sabe onde pôr a mão, como colocar a voz, qual a palavra certa.

Conhecia-te de histórias, de longas e míticas histórias dos teus tempos de rebeldia e, a princípio, foi difícil associar-te, a ti fisicamente, à personagem que tinha criado no meu imaginário. Mas, foste marcando presença no meu dia-a-dia e eu deixei. Falar contigo começou a ser fácil. Sempre fui uma pessoa mais de palavras escritas do que faladas, mas tu fazias questão de me ouvir e de te fazeres ouvir. E eu ouvi, ouvi sempre. Já não tinha como fugir, como estar longe de ti. Foi tudo tão rápido, parecia tudo tão magnificamente irreal, mas forte e intenso e perigoso. 

Foi assim que eu vivi a nossa história.

 

***

 

Portanto, fechei a porta atrás de ti, depois do beijo e do abraço, e chorei. Fiquei encostada à porta a tentar ganhar coragem para chamar por ti pela janela, ou à espera que tu fizesses o mesmo. Mas deixei passar os minutos e secar as lágrimas. Foste-te embora e eu fiquei, irremediavelmente, à tua espera.

 

Durante a tua ausência, revivi os momentos que tínhamos passado juntos, as conversas, as tuas expressões por detrás das palavras. A cidade rendeu-se ao frio de Dezembro e eu coloquei a minha pequena árvore de Natal ao pé da janela. Luzes coloridas na escuridão propositada da casa. Nessa escuridão, enchia o copo de vidro vermelho com vinho e olhava, sem ver, a rua de calçada portuguesa através da janela. Pensei em ti, desmedidamente. Via-nos, ainda, no sofá desconfortável da sala, nas longas noites de conversa que partilhávamos. Quando agora penso em ti, lembro-me do frio das ruas, do aconchego de estar em casa, dos pés molhados da chuva. Lembro-me dos telhados das casas e do rio ao fundo, do céu estrelado do Alentejo. Lembro-me do pulso acelerado, dos papéis escritos, das memórias que guardei para depois partilhar contigo. Lembro-me do tempo que nunca mais passava, principalmente, desse tempo que nunca mais passava.

Foste o meu Verão e o meu Inverno.

 

***

 

Acho que nunca te apercebeste do quanto de mim levaste contigo na viagem. Voltaste incompleto e não te voltei a abrir a porta. Quando dei por mim, estava sozinha com as mãos cheias de um amor que guardei, inútil e estúpido. A porta fechada. A árvore de Natal guardada na caixa, o início da Primavera lá fora. O tempo que tinha, afinal, passado e o sofá vazio. O Alentejo lá longe.

 

 

 

...to be continued.

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