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The Middle Way

Blog humanitário e reivindicativo da liberdade e felicidade de todos, até do próprio planeta.

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06
Dez17

A viagem - uma história #2

JR

Setembro de 2012

 

II

 

O dia começou enevoado pela manhã cedo. Por momentos, pensei que fosse chover. Mas, acho que foi essa cor cinzenta e lânguida que acabou por dar mais encanto à pacata metrópole alentejana de Beja. A cidade calcorreia-se rápido. Tem um pequeno centro histórico, com ruelas e casas coloridas, como bom lugarejo alentejano.

Os meus passos foram, entretanto, interrompidos por vozes exaltadas e frias vindas de uma janela azul de um palácio antigo. Ouvi-as, primeiro sem atenção. "Esteja calado!" - seguiu-se a voz rouca e pouco firme de um senhor de idade - "Seu chato!" - novamente o senhor, tentando impôr o seu ponto de vista - "Olhe que há gente que não tem quem cuide deles!" - som de pratos e talheres. Uma senhora a chorar ao longe. Parei. Foi aí que passei os meus olhos pelo edifício. Poderia aquilo ser um lar de idosos? Acelerei o meu passo, outrora lento de passeio, voltei atrás e fui procurar a porta principal: Centro de Apoio à Terceira Idade.

Apoio? Apoio de palavras? De carinho?

 

Decidi fazer-me, novamente, à estrada, no preciso momento que o sol voltou a vislumbrar-se por entre as nuvens. É engraçado como, realmente, a paisagem vai mudando ao longo do caminho. A cor avermelhada foi sendo substituída por um amarelo claro, largo no espaço, em longos campos de trigo, aqui e ali, manchados pelo castanho de girassóis secos e vergados. Tristes.

Cuba é capaz de ser dos sítios mais sós do Alentejo. Poucas foram as pessoas que se cruzaram comigo na rua. O senhor de boina e bengala a quem pedi indicações sobre um bom restaurante fez-me ver, na pacatez do seu discurso, que hoje era domingo. Agradeci, saudei Cristóvão Colombo no seu pedestal no centro da praça e perdi-me nas ruelas. Contentei-me com um belo hot dog, pouco típico da região.

 

Cheguei à barragem do Alqueva ainda com o sabor a ketchup americano. A paisagem é indescritível! Torna-se mais acidentada, com montes que se elevam, mais pontilhados de verde. O azul forte e brilhante da água é interrompido, ocasionalmente, por pequenos ilhéus. Teria ficado horas, alegremente, sentada no topo daquele miradouro. Lembrei-me do livro dentro da mochila, na mala do carro, lá em baixo, e arrependi-me de não o ter posto na carteira que levava ao ombro. Este sim, o "admirável mundo novo!" que vim descobrir. 

A barragem do Alqueva tem uma extensão enorme vista da aldeia histórica de Monsaraz. Do topo do seu castelo, temos uma vista panorâmica privilegiada da região. Monsaraz estava apinhado de gente! Logo à entrada, um trânsito a que já não estava habituada, com autocarros e turistas de bonés enfiados na cabeça. O omnipresente casal japonês, turistas obrigatórios em qualquer parte do mundo, de máquina fotográfica ao pescoço e sorriso aberto para o universo. Desta vez, o pôr-do-sol começou em frente à Rocha dos Namorados, que encontrei no caminho de regresso. Segui as indicações do cartaz informativo colocado lá perto: "...ainda hoje, as mulheres solteiras atiram uma pedra com a mão esquerda, de costas para a rocha, tentando colocá-la no seu topo. O número de tentativas falhadas corresponderá ao número de anos que faltam até se casarem." Uma, duas...três! Terceira pedra no cimo da rocha! Dois anos e estou casada! Ri-me com a improbabilidade de tal acontecer.

 

A entrada de Reguengos de Monsaraz cheira a vinho. Tal já se podia adivinhar, ao longo do caminho, pela quantidade de vinhas que ladeiam a estrada. Uns poucos dias mais e começam as vindimas. Arrepiei-me com a percepção inesperada do passar do tempo. 

E foi com o sabor quente do bom vinho tinto de Monsaraz que acabei o dia. Dentro deste quarto, ouvem-se os grilos lá fora. Da varanda, se fechasse os olhos, sentia-me em casa.

 

 

Era bem pequena quando fui para terras orientais. Na altura, ainda sob governação portuguesa, Macau podia ter sido considerada mais uma viagem na minha terra. As minhas memórias remotas, dos primeiros meses em Macau, são escassas. Lembro-me de todas aquelas coisas que marcam as crianças: os passeios em família, a estranheza da comida, os brinquedos que os meus pais foram comprando para alegrar o quarto de hotel, que foi a nossa primeira casa. Recordo as saudades, saudades da família e do meu amigo Álvaro, senhor bem parecido, de cabelos brancos raros espalhados na sua careca. O Álvaro foi o meu primeiro e melhor amigo de infância. Andava comigo para todo o lado, nos seus ombros ou atrás da sua bicicleta. Muitos dos meus dias eram passados na casa dele e da Maria ora vendo televisão, ora jogando Lotto. Aquela casa e aquele abraço eram o meu ponto de refúgio onde estava sempre, indiscutivelmente, protegida.

A Maria tratava da logística toda, rápida e desenvolta, dando-me óptimas sandes de chouriço. Adorava chouriço e ela fazia questão de ter sempre essa iguaria à minha espera. O Álvaro estragava-me com mimos. Lembro-me, perfeitamente, do pequeno copinho de vidro em forma de bota, onde ele me dava a provar umas gotinhas de café. A Maria bem reclamava - "não dês café à menina!...". Mas eu gostava e ele fazia-me, sempre, a vontade. Talvez o meu desmedido gosto por café, principalmente pelo seu aroma logo pela manhã, venha desses tempos passados.

Portanto, quando fui para Macau, o Álvaro ficou a chorar. Nunca me esqueci disso e, até me adaptar áquela terra estranha, andei triste também. Por ele.

 

Mas Macau ficou. As ruas começaram a fazer parte do meu dia-a-dia, os cheiros entranharam-se em mim, os sabores de todas as iguarias que comprava, sem medo, aos vendedores de rua tornaram-se vício. Todo aquele reboliço das ruas sujas, fervilhando de gente, de carros, de riquexós, de néons iluminados...tornou-se casa. Cresci numa mistura de línguas. O português, o inglês e o cantonense. Tornei-me, eu mesma, um pouco chinesa também.

Viajar de avião era já habitual. As longas horas no ar, bem lá no alto, não me incomodavam. Tinha sempre espaço no chão, entre as fileiras de cadeiras, onde cabia na perfeição. Lembro-me de adormecer, feliz, ao som ruidoso dos motores a trabalhar. Acordava ansiosa por saber que iguaria ia ser servida ao almoço e ao jantar. Toda a agitação prévia à viagem, fazer as malas, me deixava encantada na antecipação do ir.

 

Ainda hoje consigo traçar, mentalmente, grande parte dos percursos que fazia. Estranhamente, dou por mim a desejar sentir aquele ar pesado de humidade, quase irrespirável! Imagino-me sentada nos areais da praia de Hác-sá, com os pés enterrados e sujos de areia preta. Retorno, vezes sem conta, a esta infância longínqua.

 

A nossa casa está onde nos sentimos felizes.

 

 

 

...to be continued.

 

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