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The Middle Way

Blog humanitário e reivindicativo da liberdade e felicidade de todos, até do próprio planeta.

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01
Dez17

A viagem - uma história #1

JR

Setembro de 2012

 

I

 

 As viagens começam no momento que decidimos fazê-las. Esta, que agora faço, começou numa bela tarde de Verão, em Lisboa. Descia eu, na altura, a longa Avenida da Liberdade, procurando a sombra das árvores para tentar suportar o calor. Ia em silêncio porque ia sozinha. E estava feliz. Não foi assim há muito tempo que comecei a gostar de estar sozinha mas, a partir do momento que fiz as pazes comigo mesma, o meu espaço ganhou aconchego. Talvez tenha sido a alegria pachorrenta desse dia quente, talvez o próprio nome da avenida, que me fez tomar esta decisão: vou conhecer, sozinha, o meu país. E, ali mesmo, começou a viagem...

 

...que me trouxe até este quarto de hotel, em Beja. Primeiro dia, primeiros quilómetros. Acordei cedo, sem aquele sono típico de quem desperta para mais um dia de trabalho. Bebi o café, mais por hábito do que por necessidade, atirei a mochila para o carro e sorri para o volante. "Aqui vou eu!". E, assim, galguei sem pressas a Serra do Caldeirão. Janelas abertas, mão fora do vidro rindo-me, ocasionalmente, com o nome de terriolas perdidas nas encostas, no meio da pouca vegetação que sobreviveu aos já habituais incêndios de verão. 

 

A chegada a Mértola é, simplesmente, deslumbrante! O castelo lá no topo, bem no topo daquele escarpado, acessível por uma ponte estreita. As casas brancas nas ruas velhas, coloridas aqui e ali por flores nos beirais e roupas estendidas ao sol tórrido. O Guadiana lá em baixo, lento. E toda aquela solidão das ruas vazias de pessoas. Por estes lados, as terras são sonolentas.

 

Depois de um mergulho inesperado numa praia fluvial, cheguei às antigas Minas de São Domingos. Entrar naquele complexo mineiro é como dar um passo para uma outra época. O sítio é amplo, largo, de terra castanha e vermelha, fervente sob o sol da uma da tarde, engolindo aqueles destroços gigantes, de oficinas enormes, canos enferrujados e pedras que tombaram no caminho. O cheiro a metal, enxofre...e um lago parado de cor amarela, rodeado de pedra corroída, pontiaguda, atrás de um letreiro que avisa: "águas contaminadas". E o silêncio pesado de vozes que se calaram no tempo. Parece que estamos a testemunhar o assassinato de toda uma povoação e de toda uma história e se, naquele momento, tivesse ouvido um grito rasgar o vento não me surpreenderia. A verdade é que, aquele sítio, é agradavelmente assustador.

E segui caminho até Beja. Na calmaria, de tempo e de espírito, aumentei o som do rádio ao máximo e partilhei o pôr-do-sol com o Bob Dylan.

 

Éramos tão novos! Na altura, claro, não nos apercebemos disso. Começou inesperadamente. Lembro-me, como se fosse hoje, da piscina iluminada e do "adoro-te" que tinhas escrito no papel colado na parede da casa. Tinhas feito anos. Guardei a foto que tiramos nessa noite durante anos! Agora que penso nisso, não era uma foto propriamente bonita: eu de cabeça colada à tua sweatshirt azul escura, tu bem mais alto que eu, de queixo quase pousado no meu cabelo e de olhos fechados. Mas aquela foto permaneceu e alongou-se nos meus dedos durante seis anos. Tal como o abraço.

 

No alto dos meus quinze anos, tinha medo. Tinha medo de duas coisas: que ficassemos juntos para sempre e de te perder. Naquela altura, tinha o incómodo desejo de querer sempre mais do mundo e da vida.

 

Nunca duvidei que nos amássemos. Na realidade, ao longo dos anos, foi isso que nos uniu sempre. Isso e a inesgotável cumplicidade que criamos. Cresci contigo, crescemos juntos. A determinada altura, era impossível existir sem ti, o meu mundo era o teu. Erro, após erro, após erro. É como digo, éramos novos. Eu era nova.

 

Sabia, exactamente, como tu eras. Fechava os olhos e via-te, como se realmente te estivesse a ver, lado a lado antes de dormirmos. Durante anos conseguia descrever-te mentalmente, em jeito de matar saudades. Guardei, na mão fechada, o sentir-te.

E passaram-se, num ápice que agora me pesa, dez anos. Dez anos! O tempo fez-nos crescer em sentidos opostos. Nunca largamos os ressentimentos, por muitos que foram. A primeira vez que me vi, definitivamente, sem ti foi um total reaprender a viver. Lá dizem os antigos que, nessas alturas, nos apercebemos o quanto de outra pessoa trazemos em nós. Em pequenas coisas senti, imensamente, a tua falta. A vontade de partilhar pensamentos banais contigo queimava-me a voz e a saudade do teu abraço de braços grandes esmagava-me o corpo. O facto é que nos obrigamos a viver com tudo isso e nos habituamos a uma certa forma de dor. O tempo empurra-nos, por mais que nos agarremos às paredes.

 

Ter-te e ter-te perdido foi, atrozmente, importante para mim. Hoje, lembro-te, como quem faz luto de um amor que perdura em dois adolescentes que morreram.

 

 

 

to be continued...

 

 

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