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The Middle Way

Blog humanitário e reivindicativo da liberdade e felicidade de todos, até do próprio planeta.

Blog humanitário e reivindicativo da liberdade e felicidade de todos, até do próprio planeta.

17
Jan18

Só porque comprei pistachios a granel e tinha uma toranja a estragar-se...

JR

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Foi exactamente isso. 

 

Tinha uns pistachios num frasquinho há imenso tempo e uma toranja a amolecer (demasiadamente) na fruteira. Estávamos em contagem decrescente para o lanche. Foram estes os motivos que me levaram a experimentar fazer umas bolachinhas. Peguei na receita dos biscoitos de alfazema e adaptei aos ingredientes que tinha no momento. Como a bebé estava a ficar com alguns sintomas gripais, decidi aventurar-me num golden milk quentinho.

 

 

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A verdade? Saiu um lanche improvisado, rápido e totalmente aconchegante. Estava na dúvida se a pequenina ia gostar deste leite diferente. ADOROU!  Já andava a pensar em formas de introduzir mais curcuma na dieta dela e, portanto, este leite passou no teste! A repetir.

 

Em 2004 saiu um artigo científico que falava na possibilidade de a curcuma poder corrigir os defeitos da fibrose quística a nível do canal de cloro. Isto, naturalmente, suscitou uma onda de esperança: um tratamento simples e acessível a todos. Este estudo, extrapolado para os humanos e em investigações seguintes, não se comprovou. Contudo, parece consensual que esta planta e as suas raízes possuem efeitos anti-inflamatórios. Assim sendo, não havendo indicação para a utilizar como suplemento alimentar, não custa introduzi-la mais na nossa alimentação. Surtindo algum efeito, ou não, é deliciosa! E bela e amarela! 

 

Voltando aos biscoitos...! Aqui vai a receita:

 

Biscoitos de pistachio e toranja

 

Ingredientes:

- 130g de manteiga

- 2 ovos

- 50g de pistachios picados

- 120g de açúcar amarelo

- 300g de farinha

- sumo e raspa de 1 toranja

- 3 colheres de sopa de geleia de agave

 

Pré-aquecer o forno a 180ºC.

Numa taça grande, juntar a manteiga amolecida, os ovos e o açúcar e mexer bem. Adicionar a raspa e o sumo de 1 toranja e envolver com cuidado. Acrescentar, aos poucos, a farinha e bater até obter um preparado cremoso e homogéneo. Adicionar, por fim, os pistachios picados e as colheres de geleia de agave. Envolver.

Forrar o tabuleiro do forno com papel vegetal ou película anti-aderente. Distribuir, no mesmo, bolinhas de massa com cerca de 1 cm de distância entre elas. Levar ao forno durante cerca de 20-25 minutos ou até começarem a ficar douradas. Retirar e deixar arrefecer antes de servir.

 

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Espero que gostem!:)

Bons lanches!

 

 

 

Curcumin, a major constituent of turmeric, corrects cystic fibrosis defects - Egan, Marie E. et alScience (New York, N.Y.); Apr 2004

Some like it hot: curcumin and CFTR - Davis, Pamela B. et al; Trends in Molecular Medicine; Oct 2004

Correction of CF deffect by curcumin: hypes and disappointments; Mall, Marcus et al; BioEssays: news and reviews in molecular, cellular and developmental biology;  Jan 2005

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15
Jan18

A viagem - uma história #5

JR

Setembro de 2012

 

V

 

É noite e está uma ventania em Idanha-a-Nova. A zona antiga da cidade, onde fica a minha pousada, está completamente vazia. Cá fora,  de pêlo esvoaçante, está um gato preto a comer um bocado de fiambre que o senhor da recepção lhe deu. O vento quente uiva, abana os ramos das árvores. Diria que podia começar a chover a qualquer momento, desabando sobre nós um temporal medonho.

 

Conheci Castelo de Vide pela manhã. É uma vila muito engraçada, com ruas que sobem e descem, íngremes, levando-nos até ao castelo e ao forte de São Roque. Por volta do meio dia, já rolava os pneus pela estrada fora. Estamos, definitivamente, numa paisagem completamente diferente das anteriores! A serra envolve-nos, as árvores crescem nos céus, criando sombras agradáveis na estrada. De sul para norte, os animais que vamos vendo pelos caminhos vão, também, mudando. Primeiro, pastam vacas e touros nos longos prados do baixo alentejo. Mais a norte, começamos a ver cavalos imponentes. Subindo mais ainda, deparamo-nos com ovelhas preguiçosas.

Entretanto, Tejo à vista! Estava um calor insuportável! Cheguei a Castelo Branco já cansada, a precisar urgentemente de um café e, talvez, de uma sesta. Mas, lá me contive e, debaixo daqueles raios de sol em brasa, andei pela cidade. Já não estava habituada a tanta confusão! Todos os caminhos que fui fazendo, até agora, levaram-me a cidades calmas, terriolas e vilas praticamente desabitadas, mantendo-se firme a população idosa, com senhores dormitando nos bancos de jardim. Castelo Branco tem vida! Tem cafés apinhados de gente! Talvez, por isso mesmo, decidi continuar viagem. Procuro recato e paz.

Depois de uma rápida incursão a uma barragem perdida no meio do caminho, uma tal barragem Marechal Carmona, e um passeio por Idanha-a-Velha, achei que o melhor plano para hoje era jantar umas pêras que tinha na mala do carro e acabar o dia, na pousada escolhida em Idanha-a-Nova, a ver um filme. E foi assim que, pela primeira vez, senti saudades do hospital. O filme, Lourenzo´s oil, foi-me recomendado pelo meu pai. Trata de uma história verídica, de um menino com Adrenoleucodistrofia. Vi o filme todo, concentrada nos pequenos progressos da medicina. E foi, no final do filme, que vim para a rua e me apercebi do vento furioso. Sentei-me a pensar, finalmente, naquilo que quero fazer da minha vida. Os meses vão passando e ainda tenho uma escolha importante por fazer. Deixo-me embalar pelo vento. E penso.

 

 

Ser médica, pela primeira vez, não é fácil. Entramos no hospital de cabeça erguida e de canudo na mão. Há, primeiro, que nos habituarmos ao espaço, às rotinas dos serviços, aos nossos chefes. Trazemos na memória algumas das milhares de páginas que lemos ao longo dos seis anos de curso. Seis anos conglomerados, por fim, nos cinco intermináveis capítulos que nos são depositados, pesadamente, nos braços. Seis anos resumidos num, que determina o nosso futuro. Olhando para trás, parece impossível termos aguentado aqueles dias sem fim, naquela rotina rígida de bibliotecas e de café atrás de café, de sestas rápidas em cima dos livros, de almoços cronometrados ao segundo. Dias em que os nossos pequenos prazeres se resumiam a conversas ocasionais e às horas de sono que nos permitíamos por noite. Aquele ano pareceu-me um dia gigante. Tudo para um exame que acaba num piscar de olhos.

 

E, então, sou médica. E, de doente à frente, a sensação que tenho é que preciso tirar um outro curso de Medicina. Olho para o doente e recordo a sequência de passos da história clínica. Faço as perguntas, anoto tudo. "Lembra-te do que é importante!", "E agora? Qual o próximo passo? Claro, o exame físico! O precioso exame físico!". Procuramos e remexemos na memória à procura de todos os diagnósticos diferenciais. "Não te esqueças de nada...tens tudo na cabeça. O que não tiveres podes sempre procurar nos livros...". Mas é uma sensação gratificante, ganhar prática a cada dia que passa. Aprendermos, agora sim, realmente aprendermos, o que é ser médico, o que é ser doente. Não é o curso que nos faz médicos. Só somos médicos ao sê-lo. Vamos sendo, aos poucos. 

 

Milhares de pessoas passam por nós nas urgências, mas há sempre algumas que nos marcam. Lembro-me de uma senhora espanhola, com cerca de 60 anos de idade, pacificamente deitada na maca, na sala da pequena cirurgia, com um golpe fundo na testa que vertia sangue. Tinha acabado de entrar, depois de várias horas à espera. Cá fora, ouviam-se choros e queixas de doentes que esperavam. Maridos batiam à porta, furiosos, a perguntar pelas suas esposas, reivindicando braços inexistentes e trabalho redobrado. "Peço desculpa, tem de ter paciência, há muita gente e temos de ver primeiro quem está pior" - explico, sem saber para onde me virar, enquanto outro senhor me agarra no braço - "menina doutora, isto é inadmissível!". Fecho a porta e respiro fundo. Resgato, mais uma vez, da memória todos os passos da história clínica, enquanto me aproximo da senhora espanhola. Tinha caído de uma escada, nunca tal lhe tinha acontecido antes. Deve ter escorregado. Sorri para mim enquanto a suturo, sem nunca se queixar. Diz-me que é espanhola, mas que já vive em Portugal há muitos anos, depois de se ter casado com um português. "E gosto de cá estar". Continuamos a conversar, limpo a sutura, arrumo o campo de trabalho e faço todas as recomendações devidas. Suspiro e preparo-me para voltar ao corredor atulhado de gente quando a senhora me chama - "Obrigada, doutora" - Fiquei parada uns segundos. É tão raro ouvirmos tais palavras! - "Ora essa, que ideia! Não fiz mais que o meu trabalho..." - digo, ainda atrapalhada. "Não, doutora. Aqui, toda a gente se queixa, toda a gente tem dores. São poucos os que reconhecem o vosso trabalho quando, todos os dias, lidam com a miséria humana. E a menina é jovem, tem de ser forte". Sorrio, aperto-lhe a mão. "Obrigada." - digo eu, desta vez. Continuo o meu turno, motivada. São estas as nossas baterias. Meras palavras.

 

 

To be continued...

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13
Jan18

Shopping Kit - Como ir às compras de forma mais ecológica

JR

Que os sacos de plástico são uma praga, já toda a gente sabe. Na verdade, desde que passaram a ser pagos, a maioria das pessoas já reutiliza sacos de compras. Mas, infelizmente, apesar de ser um grande passo, não é suficiente. Com um pouco de organização (numa fase inicial), conseguimos produzir muito menos lixo - principalmente plástico - na nossa ida ao supermercado. E sim, dá para aplicarmos vários destes princípios nas grandes superfícies também.

 

Apresento-vos o meu shopping kit!

 

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Bastante prático. Tenho sempre tudo à mão e, na hora de ir às compras, é só colocar tudo dentro do meu tote bag e sair de casa. Também dá jeito ter um kit destes na mala do carro para qualquer eventualidade.

 

Tote bag - é o saco de pano (aqui representado pelo que me foi oferecido no evento Zero Waste pela Maria Granel). É suficiente para as compras mais pequenas. Mas, quando vou fazer as compras da semana, levo todo o kit dentro deste saco (junto do porta-moedas, telemóvel e chaves de casa).

 

 

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Saco grande - Inicialmente, vai bem dobradinho. Depois, é onde coloco todas as compras no caminho de volta a casa.

 

 

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Frascos de vidro - vão comigo sempre que vou a uma loja a granel que permita levar os nossos próprios frascos. É só tirar a tara, encher com a quantidade pretendida e pagar! Ao chegar a casa, basta pôr no armário, sem mais acondicionamentos. Infelizmente, nem todas as lojas permitem levar frascos próprios.

 

 

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Sacos de pano para sementes, grãos, frutas e vegetais - tenho de dois tamanhos. Uso estes saquinhos para vários fins. É onde coloco frutas, vegetais e cogumelos em substituição dos sacos de plástico (e também de papel) disponíveis para esse efeito nos supermercados. Nas lojas a granel que não nos permitem usar os nossos próprios frascos de vidro, utilizo-os para colocar grãos, cereais, granola, etc etc.

 

Saco do pão - Serve, exactamente, para comprar pão. Peço para o colocarem directamente no meu saco.

 

 

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Recipientes para queijo e carnes frias - uso para colocar o queijo, fiambre, chourição que compro na área da charcutaria das grandes superfícies. Peço para pesarem e colocarem directamente nas minhas caixinhas. Levo o talão na mão e entrego ao funcionário da caixa no acto do pagamento.

 

 

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Caixas de ovos - reutilizo na compra de ovos a granel.

 

 

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Uma mudança tão simples mas que diminuiu, d-r-a-s-t-i-c-a-m-e-n-t-e, a quantidade de lixo que produzo todas as semanas. Foi fácil de implementar, toda a gente notou a diferença. As compras são muito mais fáceis de arrumar ao chegar a casa. Os produtos estão mais visíveis e, o facto de comprar apenas a quantidade que quero, gera menos desperdício alimentar. 

Não querem tentar? Como fazem as vossas compras de forma mais ecológica? Que ideias brilhantes andam a surgir por esses lados? Partilhem comigo!

 

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09
Jan18

5 livros para ler em 2018

JR

Vejo os livros como vidas infinitas. Vidas alternativas. Fugas estratégicas.

Gosto de ter livros. De os ter, fisicamente. De os sentir, folhear, perceber o cheiro. Venham de onde vierem...! Da livraria, da casa do amigo, da estante da biblioteca, de lojas online...perdidos num banco de jardim. Gosto da expectativa antes da história e da grandiosidade do seu fim. De fechar o livro e acariciar-lhe a capa enquanto vasculho os significados ocultos (ou pessoais) das grandes prosas. Ou poesias...que me consomem, estranhamente, mais tempo, com todos os seus meandros.

 

Tenho uma vida inteira de livros por ler. Esta é, apenas, um pequena selecção de livros que quero ler em 2018.

 

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- Biografia Involuntária dos Amantes, de João Tordo. Um poeta mexicano, um professor universitário divorciado e um manuscrito de uma ex-mulher morta, após um atropelamento de um javali. Tem tudo para dar certo.

 

Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho. Um livreiro cego e um escritor doente que regressam ao seu passado. Uma cidade na Polónia da II Guerra Mundial, de "cristão e judeus, de sãos e de loucos, ocupada por soviéticos e alemães, onde um dia a barbárie correu à solta pelas ruas e nada voltou a ser como era". Promete.

 

O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo, de Haruki Murakami. "Dois narradores com a mesma idade. Dois mundos paralelos. Uma poderosa alegoria sobre os tempos modernos". Basta ser Murakami, um dos meus escritores favoritos e uma mente brilhante.

 

O Gene Inteligente, de Dr. Sharon Moalem. Não é um romance, mas sim um livro de divulgação científica. De que maneira o nosso dia-a-dia pode mudar o nosso ADN e, consequentemente, moldar a nossa descendência? Fiquei com vontade de saber...

 

- O Samurai Negro, de João Paulo Oliveira e Costa. Uma história passada no Japão, mas que "liga Roma, Lisboa, Pernambuco, o Congo, Goa e Cochim, o Sul da China e todo o Japão". Parece-me que vou gostar.

 

 

Já alguém leu algum destes livros por aí? Feedback positivo? 

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07
Jan18

O primeiro encontro Zero Waste de Lisboa

JR

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Este encontro já se vinha a esboçar há algum tempo.

 

Ao longo do último ano, formou-se, quase acidentalmente, um grupo de bloggers instagrammers dedicadas à sustentabilidade e lixo zero. Um grupo que, inicialmente, se uniu na tentativa de despertar novas consciências para o mundo do desperdício zero e que, aos poucos, foi crescendo, acabando por se tornar num grupo de apoio e troca de ideias entre amigas. Mas, na realidade, apenas nos conhecíamos no mundo virtual. A vontade de nos encontrarmos, pessoalmente, foi surgindo com naturalidade. O ecrã do computador não estava a ser suficiente para a constante troca de ideias e emoções.

 

Esse encontro aconteceu hoje!

A querida equipa da loja Maria Granel ofereceu-se para organizar esse encontro, com o apoio do grupo Lixo Zero Portugal. Um encontro que transbordou em ideias e carinho, pensado ao pormenor. Podemos, finalmente, conhecer-nos pessoalmente e conversar. Foram-nos apresentados produtos e marcas ecológicas e sustentáveis, bem como pessoas inspiradoras com projectos inovadores. 

 

Começamos a manhã com um brunch fantástico elaborado pelas mãos da Maria de Oliveira Dias, fundadora do The Love Food. Ingredientes 100% de origem biológica, todos de origem vegetal, sem açúcar e sem glúten. Foram servidos na cerâmica linda da Margarida Almeida, da Círculo Ceramics sendo, portanto, um produto português.

 

De seguida, tivemos o privilégio de assistir ao workshop da Cátia Curica, da loja Organii, que nos falou um pouco de preparação de cosméticos naturais com ingredientes caseiros: máscaras faciais e corporais, pasta de dentes e champô. Vou testar estas receitas e depois partilho a experiência!

 

Pouco depois conhecemos a Ana Jervis que nos apresentou a sua iogurteira Yogurtnest. Uma iogurteira que não utiliza qualquer tipo de energia para funcionar: a manutenção da temperatura ideal para a fermentação dos iogurtes é conseguida através do recurso a isolamento de cortiça. Uma iogurteira que, para além de iogurtes, permite a elaboração de pratos em slow cooking, funciona como um ninho para levedar massas e serve como mala térmica, permitindo transportar refeições já cozinhadas que se manterão quentes por bastante tempo. Adorei o conceito! 

 

Por fim, ouvimos a Sabrina Sabatini, representante da Juventude Lixo Zero Brasil (Zero Waste Youth International) que nos explicou a missão e visão desta organização. Falou no sonho de criar pontes entre as várias comunidades Zero Waste, de forma a poderem colaborar e promover, em conjunto, eventos e projectos que contribuam para um mundo mais feliz e sustentável. A Sabrina, que está em Portugal por tempo limitado, vai estar amanhã, dia 8 de Janeiro, no Mercado de Campo de Ourique a partir das 18h! Ela pretende conhecer jovens interessados no tema da Ecologia, Meio Ambiente e Zero Desperdício. Apareçam! Ela é uma simpatia!

 

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Saimos felizes e de coração cheio! 

Tenho a certeza de que, de encontros como estes, com pessoas activas e motivadas, sairão ideias novas, projectos novos e colaborações interessantes. Em prol do nosso planeta e do meio ambiente. Já estou ansiosa pelo próximo...

 

 

Conheçam também estas pessoas e projectos fantásticos:

- Ana Milhazes Martins do blog Ana, go slowly.

- Joana Gandara Reis do blog Eerie Plains.

- Joana Tadeu co-fundadora de A montra - The window.

- Catarina Matos, fundadora do blog e loja online Mind The Trash.

- Antónia Prata e o seu Instagram focado em minimalismo e desperdício zero She is Awake.

- Helena Seca do blog Day by day for zero waste.

- Inês Espada Nobre e o seu perfil de Instagram inspirador.

- Ana e Carla do blog De-vagar.

 

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05
Jan18

A viagem - uma história #4

JR

Setembro de 2012

 

IV

 

Elvas ficou para trás. Sigo em direcção a Portalegre e à Serra de São Mamede por estradas nacionais. Temos de admitir, a grande maioria das estradas do nosso país estão em bom estado, permitindo que o carro deslize sem grandes solavancos. Decidi cortar à direita quando vi uma placa que dizia: Cidade romana de Ammaia. Esta é uma das principais vantagens de fazer uma viagem sozinha: a imprevisibilidade do impulso, a satisfação completa de apetites. 

Para visitar Ammaia, temos de pagar a modesta quantida de dois euros. Temos acesso a um museu e às escavações, que ainda estão em curso. De um modo geral, não sou uma pessoa de museus. Para visitar um museu, e para o aproveitar realmente, é preciso tempo. A mim, custa-me perder tempo dentro de quatro paredes. Mas hoje, lá fui eu. E foi uma agradável surpresa! O museu em si é pequeno e sucinto. O resto é ao ar livre, onde podemos pisar terra seca e ver gafanhotos saltar à nossa frente, a cada passo que damos. Dei por mim a imaginar a cidade na sua versão original,  com gigantescas colunas erguidas em amplas praças. Como é que se perdeu a beleza das antigas cidades romanas ao longo dos séculos? Como deixamos tal acontecer?

 

Marvão olha-nos lá do topo. É um lugar extremamente bonito, com vistas panorâmicas sobre a serra, simplesmente, deslumbrantes. Hoje, felizmente, estava praticamente vazia, com poucos turistas. Sentei-me numa esplanada e pedi a sopa do dia. A verdade é que me tenho tratado bem durante esta viagem. Mas, olhando para o menu, e fazendo contas ao dinheiro e à fome, achei que não era altura para experimentar mais um prato típico alentejano. Estamos em crise e a gasolina está cara. Para além disso, o meu organismo já se tem vindo a queixar da quantidade de calorias que tenho ingerido. Sim, a sopa era a escolha mais acertada.

 

E assim desci, curva apertada após curva apertada, até Castelo de Vide. Cheguei cedo, por volta das três da tarde. Carreguei a grande mochila, companheira de viagens, pelas escadas e cheguei ao meu modesto quarto no primeiro andar. O plano inicial era o de tomar um banho e aproveitar ainda o resto da tarde para dar uma volta e, talvez, jantar fora. Mas hoje, queria tudo menos seguir planos. Mergulhei na piscina fresca e dormitei ao sol, que nem lagarto. Sentei-me, pouco depois, na varanda e acabei o meu livro pousando-o, ocasionalmente, para ouvir o chilrear imenso dos pássaros no final da tarde. Senti uma paz imensa. E uma solidão vincada. Com o passar do tempo, a solidão a que me obriguei faz-se notar, cada vez mais nítida. Não me cruzei com mais nenhum viajante solitário. Nos hotéis, olham para mim com alguma estranheza e curiosidade, que já pouco me incomoda. No início, sentia algum constrangimento. Agora, olho-os nos olhos e digo "sim, é uma mesa só para mim, por favor". Uma mesa de quatro com apenas uma refeição servida. E eu como, calmamente.

 

Regresso à minha varanda. Hoje, pouco mais vi de Castelo de Vide do que as palmeiras do hotel. Dou por mim a concordar com o livro que acabei de ler. Uma pessoa permanentemente feliz deixa de se aperceber da felicidade. Tal como as viagens: são mágicas pela sua finitude. A plenitude da felicidade é percebida após a plenitude da tristeza. Sou a favor de emoções fortes, de sentimentos arrebatadores. Nos últimos meses, tenho vivido e tenho sentido, mas falta-me profundidade. Falta loucura! Onde estão os sentimentos gritantes? Onde está o ruído e a revolta? Onde está a paixão? Onde está o abraço? Aquele abraço que fica, que não foge e que não vai a lado nenhum?

 

 

Tenho saudades tuas. Já as tive antes, é verdade. Mas hoje, insisto, tenho saudades tuas.

 

Depois de tudo, vivemos juntos. Não como alguma vez possa ter imaginado ou desejado. Mas a convivência do dia-a-dia fez crescer, entre nós, uma amizade que achei impossível. Sinto-me bem ao teu lado. Sinto-me, sobretudo, eu. Conheces-me de forma genuída, real, sem máscaras, de cara lavada e óculos, antes de me deitar. Conheço a tua voz rouca da manhã, de olhos mal abertos, quando te sentas para fazer as tuas torradas. Conheço os teus livros desarrumados na sala, o dicionário estragado, o lápis minúsculo e roído na ponta. Sei que lês na varanda e que paras, de tempos a tempos, e ficas absorto nas tuas meditações, com os teus olhos de pestanas grandes perdidos no horizonte curto do prédio da frente. Rimo-nos, rimo-nos muito. Orgulhamo-nos das nossas plantas que vão crescendo, ficamos tristes quando murcham. Somos criativos e artistas. Somos cozinheiros cada vez mais talentosos. Partilhamos os nossos doentes e peripécias da vida.

 

Mas, deixa-me hoje, só hoje, ter saudades tuas. Saudades do nervoso miudinho, da mão a tremer, da antecipação do beijo, que já só recordo em esboço. Da vontade de te conhecer mais e mais, de me dar a conhecer. Da vontade do teu abraço, apenas do teu abraço. Do presente que nunca existiu, que nunca deixaste existir. Da dúvida e da espera interminável. De que me vejas, não apenas que me olhes. Nunca me viste, realmente...corrijo, nunca me quiseste ver. E estive sempre aqui. Estou aqui.

 

 

Suspiro. Olho as memórias espalhadas na mesa. Não sei se as guardo ou se as deito fora. Estou longe e, deliberadamente, só. Na varanda, os pássaros calaram-se e a noite está quente.

Deito-as fora.

 

 

 

to be continued...

 

 

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03
Jan18

Um brownie diferente

JR

Ainda em Dezembro, empurrada pelo calendário do Advento, preparei um brunch natalício para a família. Após algumas pesquisas, acabei por decidir o menu:

hummus tradicional e pão

- ananás dos Açores

- bolachas de alfazema e de matcha

- iogurte grego + granola

brownie de beterraba

chai (chá preto com leite e especiarias de origem indiana)

 

 

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Queria uma refeição leve mas, ao mesmo tempo, nutritiva. Utilizei algumas receitas já minhas conhecidas mas também quis fazer algo novo. Lá me deparei com esta receita de brownie de beterraba que logo me prendeu o olhar. Para além de adorar cozinhar com beterraba, adoro o sabor e, principalmente, a cor linda que dá aos pratos. Esta receita está divinal! As poucas coisas que alterei em relação à receita original foi, meramente, por não ter os ingredientes certos em casa.

 

 

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Brownie de beterraba:

 

Ingredientes:

 

- puré de duas beterrabas médias cozidas

- 2 colheres de sopa de óleo de côco

- 50g de chocolate de preto

- 3 ovos

- 1/2 chávena de açúcar

- 1 colher de chá de essência de baunilha

- 1/4 chávena de cacau em pó

- 1/2 chávena de amêndoa moída

 

 

Pré-aquecer o forno a 180ºC.

Forrar uma travessa pequena com papel vegetal.

Numa panela pequena, em lume brando, derreter o óleo de côco e o chocolate, mexendo sempre. Retirar do calor e deixar arrefecer.

Numa taça grande bater os ovos, o açúcar e a baunilha até obter um preparado homogéneo. Posteriormente, juntar-lhe o puré de beterraba e o chocolate derretido e arrefecido. Misturar bem.

Por fim, adicionar o cacau em pó e a amêndoa moída e incorporar delicadamente.

Verter para a travessa forrada e levar ao forno durante 20-25 minutos.

Decorar com pétalas de rosa secas.

 

Lindo e D-E-L-I-C-I-O-S-O.

 

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Algum expert em brunch por aí?

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02
Jan18

Uma espécie de ponto de situação

JR

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Sou uma pessoa incrivelmente nostálgica. 

É, precisamente, essa nostalgia que me puxa pelas palavras e, consequentemente, pela escrita. Atrevo-me a dizer que, se a magia de momentos idos não me afectasse tanto, provavelmente as páginas permaneceriam em branco.

O passado guia-me a mão.

 

Por isso, sinto profundamente os fins e os recomeços.

 

Há um ano atrás não podia imaginar que aqui estaria, agora. Na verdade, nem sei bom o que aqui significa. A maternidade catapultou-me para o desconhecido. Não conheço a estrada, nem os cheiros, nem os sons. Habituada a conseguir prever ou, pelo menos, esboçar o dia de amanhã, aprendi que pouco da vida está, plenamente, sob o nosso controlo. Inicialmente, senti medo. Aos poucos, aceitei. Com o tempo, ficarei mais tranquila.

Reconheço, também, a beleza do desconhecido. Só nos encontramos, verdadeiramente, quando nos perdemos.

 

O último ano foi o ano de ver crescer uma vida imensa. Imensa de alegria, de energia e de garra. A minha filha preencheu-me os dias. Pude cuidar dela todos os segundos, amparar-lhe os primeiros passos, ensaiar-lhe as palavras. Sim, um verdadeiro privilégio. Cada revés vem acompanhado de inúmeras vantagens, muitas vezes encobertas. Isso, levo como ensinamento.

 

No meio da turbulência, consegui espaço e tempo para me reinventar. Me experimentar de outras formas. A maternidade consome-nos. Pedaços de nós, que nos identificam, ficam irremediavelmente pendurados no cabide à espera de melhores tempos, mais disponibilidade, outra energia. Mas novas coisas surgem, capacidades escondidas, sonhos novos.

Valha-nos a capacidade de sonhar. 

 

Que 2018 nos dê, a todos, sonhos mais altos.

Mesmo às mães que pouco dormem.

 

 

 

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28
Dez17

A Salsa mimada

JR

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Chegou a casa em meados do Verão de 2013. Pequenina. Pêlos eriçados. Orelha direita pendente.

Medrosa, escondendo-se em todos os recantos. Olhos redondos e escuros, lacrimejantes.

 

Aos poucos, foi-se aproximando. Pata-ante-pata, passos curtos hesitantes. Narizinho posto no ar, sorvendo os cheiros, ainda estranhos.

Chorou toda a primeira noite. Mas apenas essa.

 

Depois, conquistou o espaço. A caminha, o azulejo da cozinha e a madeira da sala. Fez dos seus brinquedos amigos, correndo com o seu porquinho laranja por toda a casa. Uma bola de pêlo rebolando no soalho. Passou a dormir tranquila. Começou a levantar a orelhita.

 

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A Salsa preencheu a nossa pequena família. Deu-lhe vida e energia mas, ao mesmo tempo, paz e carinho nos momentos cansados. Minúsculos abraços felpudos.

 

Por isso mesmo, quando comecei a pensar em fazer actividades em família, a Salsa fez sempre parte da equação. A chegada da bebé roubou-lhe um pouco do protagonismo, mas não do amor. Chegará o dia em que ela vai perceber que as novas aquisições da família significam um multiplicar de carinho.

 

Este Natal, a Salsa teve direito a biscoitos caseiros feitos por mim e pela bebé: chicletes de banana biscoitos de abóbora e batata doce.

A inspiração veio daquidaqui.

 

Ela adorou! Principalmente os biscoitos de abóbora, devorando-os electricamente.

 

Chicletes de banana:

- duas bananas maduras;

 

Cortar as bananas em tiras longitudinais fininhas e dispô-las num tabuleiro forrado a papel vegetal. Levar ao forno a 100ºC durante 1h30-2h até desidratarem, mas sem as deixar ficar crocantes. 

Ficam com uma certa consistência elástica, sendo mais difíceis de roer.

 

Biscoitos de abóbora e batata doce:

 

Ingredientes:

- 200g de farinha de arroz

- pequena pitada de canela

- 220g de puré de batata doce

- 100g de puré de abóbora

- 110 mL de água

- 1 ovo

 

Pré-aquecer o forno a 180ºC.

Numa taça grande, misturar a pitada de canela à farinha de arroz.

Num recipiente à parte, juntar o puré de batata e o puré de abóbora ao ovo é àgua e misturar bem.

Lentamente, juntar o preparado húmido à farinha e bater até formar uma massa consistente.

Num tabuleiro forrado a papel vegetal ir dispondo, com cerca de 1 cm de intervalo, pequenas bolas moldadas do preparado obtido anteriormente. Pode-se decorar a bola com um garfo para lhe dar uma aparência mais divertida.

Levar ao forno durante 20 minutos.

Deixar arrefecer antes de dar ao seu amigo patudo. Dessa forma vão-se tornar mais crocantes.

 

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Não menos importante, têm a vantagem de não ter embalagem!

Devem ser consumidos rapidamente. Caso contrário, o melhor é congelar uma parte para dar mais tarde. Deixei estragar alguns dos meus...

 

Que miminhos dão aos vossos animais?

 

 

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19
Dez17

A viagem - uma história #3

JR

Setembro de 2012

 

III

 

Acordei para uma manhã solarenga. Abri as cortinas para deixar entrar a pálida luz e deixei-me dormitar um pouco mais. O hotel pareceu-me estranhamente vazio, com poucos carros no parque de estacionamento. Demorei até encontrar a sala do pequeno-almoço. Depois de uma sandes de queijo e de um café revigorante, lá arranquei rumo ao Alto Alentejo. Ao longo destes três dias, tenho-me apercebido de que uma boa banda sonora no carro influencia bastante o nosso estado de espírito. Com isso em mente e com uma boa dose de energia, deixei tocar bem alto os hits da minha adolescência, na voz de Fred Durst - e na minha. E assim, gritando raivas acumuladas pela janela do carro, cheguei a Vila Viçosa.

 

Por sorte, estamos no último dia das festas dos Capuchos. A praça principal da terra estava cheia de pessoas andando, de um lado para o outro, de cerveja na mão. Outras encostavam-se a um estrado de madeira que delimitava uma espécie de recinto que tinha, como ponto central, uma fonte de pedra. Foi então que ouvi um estrondo! Com curiosidade, furei a multidão e, também eu, espreitei através das grades. Dei de caras com um touro grande, preto e pachorrento. Aparentemente, era o touro 36, segundo a inscrição que trazia no dorso. "Ah! Este mexe-se mais que o de ontem! Pelo menos, já corre pelo recinto todo. O de ontem ficou-se ali por cima" - disse-me, apontando, uma senhora de chapéu na cabeça que se aproximou de mim. "Lançam um touro por dia?" - perguntei. "Não, não! São três. Hoje ainda tem mais dois para ver". 

Olhei para o touro e achei-o tudo menos energético. Olhava confuso para todas as pessoas que o incitavam e, de vez em quando, lá investia. Os corajosos forcados amadores, nas suas camisas brancas e óculos Ray Ban, corriam desalmadamente para o ponto elevado mais próximo. Decidi deixar a multidão animada a cansar o pobre bicho e fui ver o castelo.

Como calculei, estava vazio. Entrei na igreja, sentei-me um pouco ao fresco, voltei a sair e decidi entrar no cemitério. Logo à entrada, a campa de Florbela Espanca! Ah! Como eu devorava os poemas dela! Li-os muitas vezes, nas alturas tristes, partilhando a mágoa e solidão que ela tanto descrevia.

Regressei, depois de um passeio rápido pela vila, para a zona animada da festa dos Capuchos. O mesmo touro, o tal 36, lá andava de um lado para o outro, babando-se de cansaço. Olhos desnorteados, narinas abertas da respiração ofegante, tentando decidir qual dos corajosos merecia mais um pouco do seu esforço. Com tamanha indecisão, achei que era altura de ir almoçar uns pézinhos de coentrada, antes de rumar a Borba.

 

O caminho entre Vila Viçosa e Borba está cheio de pedreiras de mármore. Pedras brancas gigantes, amontoadas, como se tivesse havido, na noite anterior, uma chuvada de pedras. Lá mais para a frente, como estava à espera, as vinhas. Estas mantêm-se durante o resto do caminho e multiplicam-se até Elvas.

O centro histórico de Elvas está dentro de grandes muralhas protegidas, ainda, por um fosso fundo. À volta da cidade, existem mais dois fortes, o forte da Graça e o de Santa Luzia, que nos propiciam uma vista magnífica do alto do Castelo. Pela primeira vez, fiquei a dormir em casa de amigos. Lá consegui exercitar a minha voz. As conversas desenrolaram-se, cada vez mais fluidas, durante um óptimo jantar alentejano de migas de espargos e hortelã, regado com um bom vinho regional alentejano recomendado pelo empregado de mesa, que era brasileiro. Encontrava-me entre um engenheiro e uma médica. 

O dia acabou com uma volta nocturna pela cidade velha. Assim, à noite, a cidade ganhou um encanto especial. E foi aqui, em Elvas, que pela primeira vez senti falta de ter alguém comigo, ao meu lado, nesta viagem. As muralhas iluminadas, no meio da ventania forte que se fazia sentir naquela noite estrelada, merecia um abraço, com Badajoz no horizonte.

 

 

Fechei a porta atrás de ti.

 

Quando entraste, naquela noite, sabia que tudo tinha um jeito de despedida. Trouxeste tu a garrafa de vinho e eu não fiz jantar. Sentia um nervosismo resignado, bem diferente do nervosismo expectante das outras vezes. Sempre me deixaste nervosa, como quem não sabe onde pôr a mão, como colocar a voz, qual a palavra certa.

Conhecia-te de histórias, de longas e míticas histórias dos teus tempos de rebeldia e, a princípio, foi difícil associar-te, a ti fisicamente, à personagem que tinha criado no meu imaginário. Mas, foste marcando presença no meu dia-a-dia e eu deixei. Falar contigo começou a ser fácil. Sempre fui uma pessoa mais de palavras escritas do que faladas, mas tu fazias questão de me ouvir e de te fazeres ouvir. E eu ouvi, ouvi sempre. Já não tinha como fugir, como estar longe de ti. Foi tudo tão rápido, parecia tudo tão magnificamente irreal, mas forte e intenso e perigoso. 

Foi assim que eu vivi a nossa história.

 

***

 

Portanto, fechei a porta atrás de ti, depois do beijo e do abraço, e chorei. Fiquei encostada à porta a tentar ganhar coragem para chamar por ti pela janela, ou à espera que tu fizesses o mesmo. Mas deixei passar os minutos e secar as lágrimas. Foste-te embora e eu fiquei, irremediavelmente, à tua espera.

 

Durante a tua ausência, revivi os momentos que tínhamos passado juntos, as conversas, as tuas expressões por detrás das palavras. A cidade rendeu-se ao frio de Dezembro e eu coloquei a minha pequena árvore de Natal ao pé da janela. Luzes coloridas na escuridão propositada da casa. Nessa escuridão, enchia o copo de vidro vermelho com vinho e olhava, sem ver, a rua de calçada portuguesa através da janela. Pensei em ti, desmedidamente. Via-nos, ainda, no sofá desconfortável da sala, nas longas noites de conversa que partilhávamos. Quando agora penso em ti, lembro-me do frio das ruas, do aconchego de estar em casa, dos pés molhados da chuva. Lembro-me dos telhados das casas e do rio ao fundo, do céu estrelado do Alentejo. Lembro-me do pulso acelerado, dos papéis escritos, das memórias que guardei para depois partilhar contigo. Lembro-me do tempo que nunca mais passava, principalmente, desse tempo que nunca mais passava.

Foste o meu Verão e o meu Inverno.

 

***

 

Acho que nunca te apercebeste do quanto de mim levaste contigo na viagem. Voltaste incompleto e não te voltei a abrir a porta. Quando dei por mim, estava sozinha com as mãos cheias de um amor que guardei, inútil e estúpido. A porta fechada. A árvore de Natal guardada na caixa, o início da Primavera lá fora. O tempo que tinha, afinal, passado e o sofá vazio. O Alentejo lá longe.

 

 

 

...to be continued.

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